Universo Paralelo #17: Mês do Terror: Contos de Edgar Allan Poe

poe1.

Embora no Brasil essa tradição americana não seja tão popular assim, Outubro é oficialmente o Mês do Terror, já que temos Halloween. E com tantos ótimos autores desse gênero, nada melhor do que falar de um dos meus escritores favoritos de todos os tempos, o genial Edgar Allan Poe. É de sua autoria Os Assassinatos da Rua Morgue, considerado o primeiro relato de detetives da história da literatura. Pai da literatura policial e um mestre do gênero do terror, influenciou grandes escritores, como Agatha Christie, Dostoiévski, e Sir Arthur Conan Doyle, sendo que esse último se inspirou no astuto detetive August Dupin de Poe para criar Sherlock Holmes. Com uma vida conturbada e problemática, marcada pelo abandono do pai, a morte das mães biológica e adotiva e da esposa, Poe teve muitos problemas com o alcoolismo e as dívidas de jogos, e morreu em Baltimore em 1849 em circunstâncias misteriosas, aos 40 anos. Sua experiência pessoal trágica influenciou fortemente suas obras, que contam com muitos elementos associados à morte, ao ocultismo e ao sobrenatural, mas desenvolvidos de forma bem coerente e verossímil, e seus contos de horror e mistério são referência para o gênero até hoje. Falarei de três deles: A Queda da Casa de Usher, Assassinatos da Rua Morgue e O Gato Preto.

A Queda da Casa de Usher é um conto que é construído passo a passo, e começa de forma bem despretensiosa. O narrador do conto, que não é nomeado (isso acontece também nos outros dois contos) vai passar alguns dias na casa de seu amigo de infância, Roderick Usher, ao receber uma carta dele afirmando que sofria de uma enfermidade grave. Todo o conto é cercado de melancolia, desde a primeira descrição do Solar dos Usher, até a aparência de Roderick, marcada pela decadência devido a uma doença “de família e de nascença”, segundo ele. Gosto de pensar que esse conto tem duas fases: na primeira, é construída a personalidade de Usher, assim como a amizade entre ele e o narrador e consiste basicamente na rotina da estadia do narrador na misteriosa casa, e alguns detalhes são colocados com bastante sutileza para que se possa desconfiar do que Usher claramente esconde. Aos poucos, a sanidade de Usher se perde em meio aos fantasmas do passado e aos medos em relação ao seu futuro. Este, vale lembrar, é a chave para que esse conto seja bem construído: o medo. O medo de Usher, da doença que o levará a sucumbir e algo mais que ele esconde; e o medo que começa a surgir no narrador à medida que estranhos acontecimentos se sucedem. A segunda parte é o colapso do solar dos Usher e de seus habitantes. Há um momento da narrativa muito brilhante, o clímax da história, e que conta com uma sequência de acontecimentos surpreendentes, característica em geral dos contos de Poe: você nunca sabe o que esperar. Apesar de não ser um dos meus preferidos do autor, esse conto demonstra bem a habilidade de Poe de brincar com o psicológico dos personagens que cria, e a forma como ele envolve o leitor e o coloca dentro da história com uma narração em primeira pessoa muito realista.

 .

“Neste deplorável estado de abatimento sinto que mais cedo ou mais tarde chegará um momento em que vou ter de abandonar ao mesmo tempo a vida e a razão, na luta com o fantasma sinistro do MEDO.”

.

poe2

.

O segundo conto que aqui falarei é definitivamente um dos meus preferidos. Um conto curto, cuja história gira basicamente em torno de um homem, uma mulher e um gato. Nada promissor, não é?

.

poe3

.

Um homem muito gentil, exemplo de cárater e bondade, casado com uma mulher igualmente bondosa e ambos adoram animais. O que poderia dar errado? Mas é de Poe que estamos falando, e a narrativa é na verdade a jornada rumo ao fundo do poço de alguém, que tanto pela influência do álcool quanto pelo espírito de perversidade, “um dos impulsos primitivos do coração humano”, se transforma em um homem irreconhecível e capaz dos atos mais inimagináveis que se possa esperar de alguém com essa descrição. E como a narrativa é conduzida em primeira pessoa por ele, é possível vivenciar cada etapa da transformação do mesmo com muito mais intensidade, assim como os macabros acontecimentos que são relatados. O interessante dessa narrativa e dos contos do autor em geral é que as situações que o caracterizam como gênero de terror e mistério são fruto não de um ambiente sobrenatural e um personagem comum que o conhece: o verdadeiro fator sobrenatural está na mente de cada personagem, no medo que ele faz com que cada leitor sinta com tamanha vivacidade. A cada momento uma reviravolta acontecia, e meu espanto com o resultado final dessa história pode ser resumido assim:

.

poe4

.

Não, brincadeira, foi assim:

.

poe5

.

“E então apareceu, como para minha queda final e irrevogável, o espírito de perversidade. Desse espírito não cuida a filosofia. Entretanto, tenho menos certeza da existência de minha alma do que de ser essa perversidade um dos impulsos primitivos do coração humano, uma das indivisíveis faculdades primárias, ou sentimentos, que dão direção ao caráter do homem.”

.

E por fim, um dos mais famosos contos de Poe e o surgimento do detetive C. Auguste Dupin, precursor de vários detetives da literatura e a prova da perspicácia de Poe no gênero policial. A história é contada por um jovem que mora em Paris com o recluso e misterioso Auguste Dupin, um detetive independente, pode-se dizer, que investiga por conta própria um brutal crime ocorrido na cidade na Rua Morgue, em que mãe e filha foram brutalmente assassinadas e um homem foi preso tido como culpado. No entanto, Dupin acredita na inocência do rapaz e convoca seu amigo para acompanhá-lo na investigação.

Tudo nesse conto é de um raciocínio lógico tão bem estruturado que convence o leitor inteiramente dos relatos que nele se sucedem. Desde a introdução que trata do pensamento analítico (e revolucionou meus conceitos sobre os jogos de damas e xadrez) até a primeira mostra do talento inegável de Dupin (uma sequência de acontecimentos em que ele mostra seu raciocínio apurado), Poe amarra todas as pontas da história que criou, fazendo com que aos poucos as pistas sejam reveladas (fruto de uma dedução que claramente inspirou a criação do igualmente perspicaz Sherlock Holmes). O desfecho da história é surpreendente, seja pela astúcia de Dupin quanto pelas razões que provocaram todo o crime, certamente peculiares e características da criatividade dos contos de Poe.

 .

“Em tais ocasiões, não podia deixar eu de notar e de admirar em Dupin (embora a rica idealidade de que era ele dotado a isso conduzisse, como era de esperar) certa habilidade analítica peculiar. Parecia, também, sentir acre prazer no exercitá-la, senão mais exatamente em exibi-la, e não hesitava em confessar a satisfação disso lhe provinha.”

.

poe6

.

Nota dos contos: 4,5/5

.

Perspicaz, sombrio e com uma lógica afiada, Edgar Allan Poe revolucionou os contos de horror com narrativas envolventes, intrigantes e que surpreendem pela sagacidade e criatividade.

.

.

assinatura karen caires

Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s