Sétima arte #15: As Horas

Ficha Técnica:

Filme: As Horas/ The Hours

Ano de Lançamento: 2002

Direção de Stephen Daldry

Roteiro de David Hare e Michael Cunningham, baseado na obra homônima As Horas de Michael Cunningham.

Elenco: Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Ed Harris, John C. Reilly e Stephen Dillane.

Duração/Gênero: 114 minutos/ Drama

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SINOPSE: Em três períodos diferentes vivem três mulheres ligadas ao livro Mrs. Dalloway. Em 1923, Virginia luta contra suas crises depressivas enquanto escreve seu romance Mrs. Dalloway. Em 1951, vive Laura Brown, uma dona de casa infeliz com a vida que leva, mas que encontra no livro Mrs. Dalloway um meio para fugir da sua realidade. E em 2001 vive a Mrs. Dalloway moderna, Clarisse, que se prepara para dar uma festa para o seu ex-amante, Richard.

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“Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.”

Álvaro de Campos

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A persistência da Memória, Salvador Dalí, 1933.

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O relógio é um símbolo do pintor surrealista Salvador Dalí: o relógio mole acomodado na beirada de um pedestal e o relógio sob o ramo da oliveira sem folhas, cada um marcando um horário diferente, contradizendo a ideia do espaço-tempo que permite unificar passado e presente, o concreto e o abstrato. Assim como Dalí fez em A persistência da Memória, Daldry, Hare e Cunningham fizeram em As Horas, rompendo com a ideia de espaço-tempo, permitindo que as três personagens pudessem se relacionar, independente do tempo e do espaço. Mrs. Woolf, Mrs. Brown e Clarisse se unificaram por causa de três pesares: a doença (tanto física quanto mental), a arte literária e o suicídio. Acoplados a esses três pesares, o medo da morte, do esquecimento e da solidão aparece “nítido como um girassol”.

Cronologicamente, o filme se passa em quatro dias: 1923, quando Virginia, isolada no campo, por causa de crises depressivas que a levavam a cometer tentativas de suicídio, escreve o seu romance Mrs. Dalloway e recebe a visita da irmã, a artista plástica, Vanessa Bell, e dos sobrinhos; 1941, quando a escritora entra no rio Ouse com pedras no bolso e se deixa levar pela correnteza; 1951, dez anos depois, em Los Angeles, uma dona de casa, Laura Brown, que não tem nenhuma vocação doméstica, vive o estilo “American way of life”, porém amargurada. E é no romance de Virginia, Mrs. Dalloway, que encontra um escape para a sua vida infeliz; E o último dia se passa em Nova York, 2001, acompanhando a vida de Clarisse Vaughan, uma editora bissexual, que é a Mrs. Dalloway contemporânea, que ao longo do dia sai para comprar flores e planejar uma festa para Richard, seu ex-amante.

O filme inicia com o barulho de um rio, e logo somos levados à Sussex, Inglaterra, no ano de 1941. Virginia caminha apressadamente entre o jardim e o canto dos pássaros, contraditoriamente à figura melancólica e tristonha da escritora. Enquanto o plano mostra Virginia se direcionando ao Rio Ouse, no fundo ela narra à carta de suicídio que deixa ao marido, Leonard Woolf, explicando o porquê de tomar tamanha atitude. Assim o filme vai intercalando, durante as horas, as histórias dessas três mulheres.  Os objetos em cena cumprem um papel primordial, por exemplo, a cama para as três personagens é como se fosse uma caixa mágica, onde pudessem sonhar e esquecer que o mundo real existe, o mundo que as gofam. O despertador é o que as trazem de volta, no poema “Acordar, viver” de Carlos Drummond de Andrade, a leitura deste trecho pode ser tido como a tradução do sofrimento que o despertador traz a essas mulheres: “Como acordar sem sofrimento?/ Recomeçar sem horror?/ O sono transportou-me /àquele reino onde não existe vida/ e eu quedo inerte sem paixão”.

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E segue-se o dia comum e ordinário das três: ajeitar os cabelos, lavar o rosto, levantar, se vestir e encarar a porta, que é a passagem do mundo fantasioso, do plástico bolha que as envolve, para o mundo real. Em outro filme, este de 1957, chamado “As três máscaras de Eva”, mostra uma simples dona de casa que tem fortes dores de cabeça seguida de um blackout, Eva é levada a um psiquiatra, e enquanto o tratamento avança, o psiquiatra descobre que quando o esquecimento ocorre, uma nova personalidade assume o corpo de Eva, e posteriormente uma terceira personalidade aparece. Essa digressão é para melhor aludir ao que acontece no filme de Daldry e na obra de Cunningham. São três faces da mesma mulher: a que lê, a que escreve e a que muda o rumo dos livros, todas enfrentando a lentidão das horas, o dia interminável. Todas as três enfrentando a luta que é viver em um determinado tempo e espaço, mas, deslocadas do próprio tempo e dentro delas próprias.

O filme retrata diversos pesares que nós temos que lidar, por vezes, um pouco desagradáveis: a doença, a literatura e o suicídio são três deles, que para mim são os principais nesse filme. A doença que dilacera tanto o corpo quanto a mente, o medo da doença que vem consequentemente atrelado ao medo da morte. O sentimento de incompletude não é uma característica unicamente feminina, a figura masculina em As Horas também se sente melancólico. Os males da pós-modernidade não atinge só a figura da mulher que não se sente adequada a seu tempo, o homem de Cunningham e Daldry é atingido pelo medo do esquecimento, da morte e da solidão que aflige e é temida pela sociedade que foge disto como o diabo foge da cruz. Assim como Virginia, que se isolou no campo por causa da sua doença que a tornava uma prisioneira, Richard Brown, poeta, bissexual, soro positivo e ex-amante de Clarisse vive em seu apartamento, isolado, cercado pela escuridão, solitário, prisioneiro da sua doença física. A ida de Clarisse à floricultura e os preparativos da festa são para Richard que acaba de ganhar o prêmio Carrouthers, um galardão de poesia pela obra sua completa. Porém, ele não quer ir e mostrar a todos o estado debilitado em que se encontra só para alimentar a curiosidade alheia.

A arte literária é a que está mais presente nesta obra, mas eu poderia citar a arte no geral. Em um livro lançado em 2014, chamado A máquina de contar histórias, o personagem principal é um escritor que acaba de viver uma tragédia pessoal: a morte de sua mulher. Em meio à perda da mulher e a sua agonia, Vinícius entra em um táxi e tenta chegar o mais rápido possível no enterro da esposa. A agonia vai crescendo e ele pensa que “Como criador, ele teria nas mãos o poder de ligar ou desligar os semáforos. Poderia fazer o carro voar (…) ressuscitaria as pessoas, brincaria de ser Deus. Ali, vida real, era impossível subverter a lógica precisa dos fatos”. Virginia é controlada na sua vida pelo marido e pelo médico e sempre sendo observada e dosada. Na literatura Virginia encontra um meio de fuga para controlar não a sua vida, mas, assumindo uma posição de deusa, movimentando seus personagens como títeres, decidindo se eles irão morrer ou viver. O pesar da literatura em As Horas está nesse descontrole que os autores presos, em suas vidas, descarregam nas folhas, tanto Virginia quanto Richard, esse escrevendo poesias tão difíceis de ser compreendidas e aquela tentando sonhar um mundo que é controlado pelas suas mãos trêmulas.

O último pesar é o suicídio. Frida Kahlo escreveu em uma carta uma vez: “Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar”. A ideia de suicídio aqui não é a de ir, como a de Frida, e sim de fugir, fugir da realidade. O suicídio é a procura da libertação do sofrimento que esta realidade causa. Se eu falar mais de suicídio aqui, acabarei contando algumas partes interessantes do filme, e meu objetivo é aguçar a curiosidade de vocês para assistirem.

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À esquerda, a escritora inglesa Virginia Woolf; À direita, a atriz Nicole Kidman interpretando Virginia Woolf no filme As Horas.

 

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Originalmente o filme deveria ter sido lançado em 2001, porém, os produtores optaram por lançar o filme em 2002 por julgar a concorrência acirrada no ano de 2001. (Momento fofoca) Nicole Kidman, recém-separada de Tom Cruise (eles permaneceram casados por dez anos!), era no momento a Jennifer Lawrence dos anos 90, queridíssima pela mídia. Nicole: loira, bonita, alta, culta e talentosa, já vinha ganhando a crítica e o público por filmes como Os Outros e Moulin Rouge, ambos de 2001. Em 2003, Nicole foi agraciada com o Oscar de melhor atriz por esse filme (As Horas). Alguns atores passam por mudanças radicais, e Nicole teve que fazer algumas mudanças: usou nariz falso, era canhota e teve que aprender a escrever com a mão direita além de imitar a caligrafia da Virginia Woolf, ainda teve que aprender o sotaque britânico (Nicole é australiana) e trabalhar a voz para falar uma oitava abaixo. Ufa! Mas, eu destacaria mesmo, Meryl Streep. Primeiro porque ela é a rainha da atuação (se atuar fosse uma religião, com certeza, Meryl seria a deusa e Daniel Day-Lewis seria o Deus), e Meryl não vinha tendo nenhuma atuação de destaque desde 1995, em Pontes de Madison de Clint Eastwood. Em As Horas, Meryl conseguiu trazer uma Clarisse que transpassava com facilidade essa linha que separa o desespero da serenidade. E claro, a sempre ignorada, Juliane Moore, que sempre está acima da média nos filmes, mas nunca é lembrada pela academia. Nicole fez um ótimo trabalho, mas não merecia o Oscar, assim como (vou polemizar aqui, mas essa é minha opinião) Jennifer Lawrence não merecia o Oscar pelo mediano O Lado Bom da Vida. Apesar das polêmicas e etc. As Horas é um drama incomum, que pode parecer monótono, mas que no decorrer dos minutos cria um laço com o espectador e faz com que ele embarque na história, mergulhando no rio da angústia junto com Virginia, Laura e Clarisse.

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Trailer legendado do filme:

 

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Trilha sonora do filme:

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assinatura maria

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