Sétima arte #14: Idiotas e Anjos

Filme: Idiotas e Anjos
Título Original: Idiots and Angels
Direção: Billy Plympton
Ano:  2008
Animação: Comédia+Drama
Avaliação IMDB: 7,0 / 10
Avaliação IMDB: 93% de aprovação
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Sinopse:
Angel é um homem egoísta, abusivo, moralmente corrupto e falido, que sai todos os dias repreendendo clientes e funcionários de um bar local. Um dia, misteriosamente, surgem um par de asas à personagem que o força a fazer boas ações, ainda que contrário a sua natureza. Ele deseja se ver livre das asas mas acaba lutando contra aqueles que desejam suas asas como bilhete para fama e fortuna.
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Idiotas e Anjos possui uma animação de aparência cartunista, é possível ver os traços de lápis nos personagens e cenários, e a matiz de cores escuras, quase como se houvesse apenas o branco da folha e o preto do lápis, salvo a escolha de algumas cores opacas, é um ponto de destaque da animação. Entretanto, o grande destaque do filme é a ausência de diálogos, pelo menos não dos diálogos falados!!! É quase um cinema mudo, a mensagem é baseada na narrativa e “interpretação” dos personagens, que é realizada com maestria pelo talentoso cartunista e animador digital, Billy Plympton. E como o filme é “mudo”, há um destaque muito grande para a trilha sonora, que é extremamente variada, tanto em ritmo como na linguagem, com destaque para a belíssima Nicole Renaud, que apresenta as músicas de maiores destaque da película, em especial a música tema, como no vídeo abaixo. Outro destaque, é a apresentação do grupo brasileiro “Forro in the Dark” que apresenta com destaque a música “Que que tu fez”. A trilha sonora do filme é um espetáculo à parte!
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O filme usa o conceito de distopia, bastante explorado em diversos filmes como Mad Max, Jogos Vorazes, Minority Report, Sin City, entre outros, onde o cenário, o pensamento e a filosofia das personagens e o discurso narrativo representa uma antítese da utopia, ou seja, não é apresentado um mundo perfeito com existências ideais, mas sim uma sociedade corruptível, opressiva e com o bem comum flexível e muitas vezes amoral. Costuma-se usar o conceito de distopia (e esse caso não é exceção) para realizar uma sátira e uma crítica a sociedade em que vivemos, extrapolando em alguns momentos a realidade e os limites das convenções sociais. Outro ponto importante da narrativa, é que ela possui um jogo de cenas extraordinário, que chega a ser quase vertiginoso com tantas mudanças de planos, enquadramentos, focos e ângulos. A apresentação gráfica faz parte da arte e se movimenta num ato constante, quase que numa dança de cores e formas, permitindo que façamos diversas viagens pelo cenário, nos tirando em alguns momentos do papel de espectador para como se estivéssemos no pensamento dos personagens ou sentado na mesma mesa do bar.
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O anti-herói sem nome da história (que chamaremos aqui de “Angel”) é um homem repugnante, que acorda todos os dias de mau humor com a vida, e logo nas primeiras cenas incendeia um carro por parar em uma vaga que ele acreditava que é sua, bem em frente do Bar do Bart, que é onde se passa a maior parte da história. Vestido sempre como um trabalhador de escritório, com um terno em três peças, maleta e um cigarro chaminoso na boca. A rotina de Angel é sempre a mesma, todo o dia naquele bar, enchendo o saco dos clientes, tomando drinks e fantasiando com a atendente do local. Os momentos dentro do bar nos dá a chance de conhecer melhor cada personagem, cada acontecimento gera reação dos personagens e podemos nos aprofundar em cada um deles. Nos é apresentado, além de Angel, o dono do bar, Bart, e sua linda esposa. Uma das clientes que mais frequenta aquele local é uma mulher gorda vaidosa, e também aparece um médico corrupto e um homem “aparentemente” idiota.
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Uma das cenas mais marcantes dentro do bar, é quando Angel senta na cadeira e não percebe que tem um casulo em cima da sua cabeça. O casulo desabrocha e nasce uma linda borboleta que, pela reação de todos os personagens, parece ser um acontecimento milagroso naquela sociedade distópica. Ao nascer, a borboleta causa diversos pensamentos dos personagens, cada um se imagina num futuro influenciado pela aparição da borboleta, e nisso conseguimos decifrar quais são as intenções de cada personagem. A decisão de Angel é chocante, e apresenta bem seu estado de espírito antes do surgimento das asas, ao ver o inseto em cima da sua cabeça, ele ampara-o delicadamente, coloca-o em sua frente e o esmaga com as mãos (como apresentado no quadrinho abaixo).
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O clímax do filme acontece quando nosso anti-herói acorda com um pequeno par de asas, que ele tenta esconder e inibir, mas parece ter vontade própria e inicialmente causa constrangimento e deboche. Entretanto, com o passar do tempo, aprende a lidar com a situação e começa a usar isso a seu favor, roubando pessoas e zombando de alguns, entretanto ele vai percebendo que as asas impede que ele faça coisas erradas e estimula-o a fazer boas ações. Insatisfeito com a situação, ele tenta se livrar das asas, enquanto isso, um grupo de pessoas cobiçam o par e começa a fazer de tudo para conseguir e poder concluirem seus sonhos maquiavélicos. A luta pela cobiça, inveja e redenção são fatores presentes na segunda metade da animação, que apresenta um final explosivo e cheio de reviravoltas inusitadas.
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O filme apresenta um conteúdo moral, explorando a relação entre as pessoas, a capacidade de redenção de uma alma e as consequências de nossos atos, com um apelo muito forte para o seguinte lema: “todo homem é essencialmente bom, mas a sociedade o corrompe.”. Outra característica presente nesta distopia é a exploração da estupidez coletiva (principalmente no final da animação), o discurso é sempre pessimista (todas as ações são primariamente ruins, até a aparição das asas) e a violência se torna banal e acontece em diversos momentos. O longa é sombrio e tenso, mas altamente reflexivo, as ações dos personagens nos permite divagar sobre seus caráter, mas nos é apresentado que ninguém é realmente bom, não é recomendado para todo tipo de público (é preciso estar preparado para algumas cenas de violência e um humor negro). É uma verdadeira obra de arte através de uma trilha sonora fantástica, uma estética impecável e uma trama inusitada com metáforas visuais muito bem postas, dispensando, sem nenhum pudor, o diálogo. É escuro, sem escorregar para o niilismo, e esperançoso sem virar sentimental; consegue ser doce e azedo, cínico e romântico, satírico e gótico de uma vez. Mas Idiotas e Anjos nos dá ainda mais do que isso: o filme tem um cérebro e um coração, que juntos formam uma alma. É um ser estranho, com certeza; mas podemos ver a nossa própria humanidade, em toda a sua nobreza e forma grotesca. Pois, no fundo, todos temos uma parte anjo e uma parte idiota dentro de nós.
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 assinatura bruno
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