Não posso, quando não há lágrimas

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“Amor oferecido não se devolve. Não pede recompensa. Não exige final feliz” (Fabrício Carpinejar, Me ajude a chorar)
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            É porque se trata de Carpinejar, então a minha escolha por ler a sua obra mais recente, Me ajude a chorar, foi quase que instantânea. Não somente pela belíssima exposição do trabalho feita pelo grupo Record, que sob o selo Bertrand Brasil, apresenta o novo livro de crônicas desse autor, como também por toda a trajetória dele como escritor, eu esperava novamente um grande trabalho, novamente um grande livro a falar dos sentimentos, a tocar nos relacionamentos, a deixar um pouco a racionalidade fria de lado e de novo fazer o leitor se envolver mais com a vida que se registra no cotidiano e pelo sofrimento que imponderavelmente pode nos acometer em algum momento de nossas vidas. É porque se trata de Carpinejar, então há sempre uma expectativa em ler os seus textos.
 
Mas, infelizmente, o trabalho de uma maneira geral não encanta. O livro é cheio de altos e baixos (mais baixos do que altos); é repleto de metáforas artificiais, de frases de efeito; e o texto desse escritor gaúcho que já protagonizou excelentes obras para a literatura nacional na contemporaneidade parece entrar para uma linha de construção que considero ainda imiscível para a literatura: que é a colocação de autoajuda ou de aconselhamentos extremamente sentimentais, mas sem nenhum compromisso artístico, ao longo de uma narração, ou vinculado a ela. Para mim, autoajuda ainda é uma categoria diferente de “literatura”, se pudermos considerá-la como tal, e que não conseguiu apresentar ainda, uma obra grandiosa quando vinculada a crônicas sobre a vida, sobre os sentimentos, sobre as posturas das pessoas, principalmente quando o objetivo do trabalho seja o de discutir assuntos reais, de falar sobre problemas reais. Autoajuda talvez não seja a melhor resposta e não consiga costurar, tampouco artisticamente, repostas para os problemas que ela se propõe a resolver. Pode até ser uma falácia, porque as repostas apresentadas, ainda que em forma de perguntas retóricas, podem deixar os problemas maiores do que eles já são; em vez de compreendê-los, as repostas sugeridas podem apresentar um problema maior e que ela, por sua vez, não consegue resolvê-lo. Um exemplo do que eu digo, aparece na crônica: Querido Caio Fernando Abreu, observe:
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Como alguém pode vir morar contigo, dizer que te ama na noite anterior, e sumir de repente sem nenhum arrependimento? Amor muda de ideia? Amor é leviano assim? Amor é brincar de destruir? O que digo agora também já está morrendo? Morrer produz barulho, sei, mas e o barulho de viver? Não dá para ouvir daí? Como do homem dos sonhos você se torna um homem sem sonho?
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A resposta para essas e para outras perguntas retóricas dessa crônica:
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Alguém mentiu, Caio, para mim. Para si (no caso, ‘ela’ a quem ele se reporta ao amigo Caio , pelo seu sentimento de vazio). E Para todos. Eu não desisto do que falei um dia com todo coração. Mas sou eu, Caio, sou eu. Não posso exigir isso de ninguém. Viver é incompreensível.
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Ou seja, as respostas que ele busca para o vazio do seu momento e pela sua frustração sentimental e que questiona ao amigo, Caio, estão em dizer, por sua conclusão, que viver é incompreensível. Porém, ele vive e quer mostrar que, mesmo diante da dor, é possível viver objetivo do livro. Então, se viver diante da dor é mostrado em outras crônicas, e ele quer explicar como é possível viver, melhor dizendo, sobreviver aos momentos difíceis e às situações imponderáveis, a conclusão que se chega é que viver é passível de explicação, pelo menos, ele tenta explicar. Em outras palavras, se viver é incompreensível, como ele conclui, a resposta dada cria um problema ainda maior para as perguntas que ele se propõe a responder, a ir à procura de respostas.
 
Se eu fosse discorrer sobre todos os problemas encontrados nas crônicas de Me ajude a chorar e no que ele enquanto autor tentou passar de mensagem para o seu leitor, eu gastaria muitos parágrafos em crítica, e que se tornariam injustas por conhecer a qualidade dele como escritor. Não dá por um trabalho ruim, quiçá mediano, mas muito aquém do que já mostrou Carpinejar, subjulgar toda a sua obra. Não é correto. Não seria justo nem para com ele, como escritor, tampouco para o seu leitor. Eu me incluo.
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De forma mais sucinta, eu vou citar sob a forma de títulos e com alguns comentários, quando julgar necessário, as crônicas que foram pontos baixos de seu mais recente trabalho, são elas: O amor depois do divórcio, Cachorro mancoO impossível é o sobrenome do medo, Por que você não arruma namorado?, A você que a vê passar, Amor irreversível, Mendigo do amor, Depois do trabalho, ainda falta trabalhar a relação, A mesa dos joelhos, nesta eu vou abrir uma exceção e destacar pelo menos um ponto fraco dessa crônica:
 
É conveniente amar a prosperidade de um homem ou o sucesso de uma mulher. Tomar conta. Amor é empobrecer junto, se for o caso. É ser inútil e continuar tentando. É não ter medo de começar com um colchão no chão e com as mesas nos joelhos. Não aguardar o momento, ficar ao lado até que ele venha ou não venha. Suportar as dívidas e os credores, as piores fases e encontrar humor dentro das contas.
 
Tudo bem fazer uma crítica a um determinado pensamento, após uma determinada obra fazer muito sucesso, vendendo mais de um milhão de exemplares, e colocar um determinado pensamento para a sociedade, como foi criticado por Carpinejar nesta crônica, no excerto destacado dela. Ele se refere à obraCasais inteligentes enriquecem juntos, que, aliás, foi o livro base para criar a ficção de humor “Até que a sorte nos separe”, protagonizada pelo comediante Fernando Hassum, nos dois filmes da história. Tudo bem fazer uma crítica a essa ideia de que para um casal ser feliz, ele também precisa planejar as suas contas, a sua economia, para que funcione o seu relacionamento. O que Carpinejar quer dizer é que a felicidade vem por meio dos temperos e destemperos da vida, de como se vive a vida, e que não dá para pensar uma relação, como se pensa uma empresa, como propôs o economista Gustavo Cerbasi, ao escrever seu trabalho. Porém, a obra de Cerbasi é uma autoajuda, ou seja, as coisas colocadas ali, no seu texto, não têm necessariamente um compromisso rigoroso com a pesquisa e com evidências observáveis, para propor soluções quanto aos problemas que podem surgir num relacionamento. É mais uma opinião do autor de onde estejam os problemas para um relacionamento ter êxito ou não. E o problema central, apresentado por ele, está em como os casais administram seu dinheiro, e como o dinheiro influencia outras questões do relacionamento. Aliás, a obra de Cerbasi funciona mais como uma New Age, do que algo para ser levado a sério, com dados precisos, como uma receita que se for seguida exatamente do jeito que se diz, o sucesso vai acontecer como se propõe. Parece maisO segredo, outra autoajuda, cuja força do pensamento faz alguém ser feliz ou triste. Pense positivo! Claro que não é essa a resposta.
 
Mas, diferentemente da obra de Cerbasi, não parece ter sido a intenção de Carpinejar produzir uma autoajuda em resposta, ou foi? Carpinejar pareceu com o seu Me ajude a chorar, construir mais uma obra para a literatura, do que um autoaconselhamento, mas que não conseguiu realizá-la em muitos pontos. Ele não renega o fato de que, sim, problemas financeiros podem ruir com uma relação. O que ele não explica são os motivos pelos quais isso pode acontecer, por exemplo, os nossos sistemas, econômico e tributário, nos quais estamos inseridos.
 
 
Assim como os relacionamentos pessoais e íntimos não podem ser tratados como empresas, também vai ser muito difícil encontrar humor dentro das contas, principalmente quando elas estão em atraso, e o casal assolado em dívidas. Em outras palavras, rir de desgraças ou de prejuízos sofridos ao longo de uma relação pode ser um tanto nonsense. Um casal deve sim planejar suas contas, para ter condições de enfrentar problemas futuros, quando a má administração de um governo coincide com a instabilidade da economia, com a flutuação do câmbio, dentre outras situações, do nosso sistema político-econômico. Pode ser até uma boa estratégia planejar as contas para que elas não sejam o motivo ou mais um dos motivos para os conflitos de relacionamento entre os casais. Não precisa ser planejado como orienta Casais inteligentes enriquecem juntos, que já possui até outros capítulos ou volumes, mas pode ser feito buscando fontes confiáveis, analisando em todo momento como anda a relação a dois e como as pessoas deste relacionamento podem se ajudar no enfrentamento dos conflitos. Aliás, nos relacionamentos duradouros, é assim que os casais fazem!
 
Outros pontos fracos estão nas crônicas: Vamos brincar de gangorra?, Um copo de água com açúcar, O imponderável (um horror, a crônica inteira, artisticamente falando), Vazio triplicado, Saudade a dois, Carta ao amigo e Não é amor. Aliás, nesta última, ao abordar a violência doméstica, ele comete o erro de “transferir a culpa para mulher”. Em que sentido? Ao tentar discutir o porquê de uma mulher sofrer, apresentando quais sejam as características dessa mulher que é envergonhada, ele deveria explicar melhor o contexto no qual esta mulher está inserida e, talvez, trazer para a cena o homem que a agride e a sociedade que a reprime por ser mulher. Lógico que não é amor é medo. Medo de morrer pelas mãos desse homem que um dia ela se decidiu por partilhar a sua vida com ele. Então, o homem que a agride deveria ser o retratado e não a mulher que sofre a humilhação e as agruras desse relacionamento que ela não pode se ver livre, como descreve o autor.
 
E continua, com o Labrador caramelo, cuja comparação entre o cachorro que ele encontra numa casa alugada no litoral gaúcho e a humanidade que ele busca não faz o menor sentido. Assombrado pela vida que é uma bobagem. Bingo! E, por fim, este trabalho tem sua última crônica com qualidade questionável em O mais extremo ódio com o mais extremo amor.
Mas há pontos positivos? Claro que sim! O primeiro deles é a organização das crônicas. As temáticas foram muito bem organizadas. O prejuízo mesmo foram o das crônicas citadas. Mas o livro em si é muito bem construído. Os atos e os temas expostos estão muito bem conectados com a proposta. Em relação à obra, o saldo negativo fica diminuído com as crônicas: Pai de meu pai (muito bonita, por sinal), O oceano e uma conchinha, A última palavra (que não é uma preciosidade, mas é uma boa crônica), Coragem da Chuva (idem A última palavra), Ninar (muito bonita), Basta uma pitangueira, Morrer com saúde, Voo 1965 e A maior tragédia de nossas vidas. Curiosamente estas crônicas estão no começo e no fim do livro, respectivamente. Seria uma estratégia da organização do trabalho? Não sei, mas elas são o destaque positivo dessa obra. Há outras crônicas que completam as 47 do trabalho, mas que não acrescentaram positivamente, tampouco foram passíveis de críticas. Elas simplesmente complementaram o livro, não merecem um destaque nem positivo nem negativo. Podiam ser retiradas simplesmente.
 
É! não vou conseguir ajudar o Carpinejar a chorar, porque não há motivos para lágrimas. Não posso, quando não há lágrimas.
 
 
O trabalho deixou muito a desejar de uma forma geral. O saldo ainda é negativo. Não foi um bom trabalho, infelizmente. Porém é sempre uma expectativa ler Carpinejar. Este trabalho especificamente não diz tudo sobre quem é esse escritor gaúcho. Fabrício Carpinejar é um escritor muito competente e talentoso, que sabe colocar suas ideias, que sabe se expressar, tanto de forma poética, quanto mais racional, querendo discutir um problema. Suas obras falam por si. Então, prefiro dizer que Me ajude a chorar foi apenas um trabalho ruim, assinado por ele, mas que em breve deve ser superado por alguma obra maravilhosa, escrita por suas mãos.
 
Espero que não, mas caso se confirme de que ele esteja migrando para a tentativa de unir literatura à autoajuda, ele deve fazer um ensaio melhor, como já são as obras de Martha Medeiros, embora não haja nenhuma obra célebre da autora. Ou pode apostar diferente, e falar dos sentimentos de uma maneira mais próxima e verdadeira ao leitor, com mais conteúdo, como faz Marla de Queiroz.
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Escritor, profissional de saúde e
apaixonado por leitura e por bons
livros!
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