[Resenha] Boca do Inferno – Ana Miranda (3/10)

Título: Boca do Inferno
Autora: Ana Miranda
Editora: Companhia das Letras / Companhia de Bolso
Ano da edição: 2006
Número de páginas: 312

 

Sinopse: Salvador, final do século XVII. Nessa cidade de desmandos e devassidão desenrola-se a trama de Boca do Inferno, recriação de uma época turbulenta centrada na feroz luta pelo poder que opôs o governador Antonio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, à facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos.Com uma linguagem rica e precisa, e uma narrativa de extraordinária agilidade, Ana Miranda trabalha em filigrana os pontos de contato entre ficção e história, mostrando em todo o seu vigor a vida de homens e mulheres dilacerados entre o prazer e o pecado, o céu e o inferno.
Prêmio Jabuti 1990 de Melhor Autora

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Esta resenha faz parte do Desafio de Férias #EuLeioNacionais. Clique aqui para saber mais.

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Boca do Inferno é um romance brasileiro escrito por Ana Miranda e publicado em 1990 pela Companhia das Letras. A obra foi realizada a partir de pesquisas feitas pela autora sobre Gregório de Matos, Padre Antonio Vieira, os jesuítas, Barroco, História de Portugal, História do Brasil, os judeus e outros assuntos diversos como alimentação, vestuário, prostituição, costumes na época do Brasil Colonial. Esses estudos renderam-lhe o Prêmio Jabuti de Revelação em 1990 e a inclusão do título na lista dos cem melhores romances em língua portuguesa do século XX, além de a obra ter sido traduzida para diversos países e ser apontada como uma boa fonte de pesquisa para quem está estudando o Barroco no Brasil.

Li pela primeira vez a obra em 2006, durante o curso de Letras, para realizar uma prova na disciplina de Literatura Brasileira I. Na época eu precisava ler uns 13 livros para a prova e estava trabalhando muito e, confesso, não o li inteiro (que minha professora não leia isso!). No entanto, fiquei com muita pena de não ter conseguido terminar pois estava adorando a leitura. O tempo passou, o curso também, outras leituras surgiram na minha vida e eu deixei para trás essa obra. Resolvi dar uma chance a mim mesma e ler novamente para o Desafio de Férias #EuLeioNacionais e não me arrependi. Achei o livro excelente!

A história de Boca do Inferno é ficcional, mas baseada em aspectos históricos. Obviamente que os diálogos apresentados foram criados pela autora, entretanto, não podemos esquecer que os personagens realmente existiram. São personalidades da história brasileira do século XVII. O espaço representado no texto é a Bahia, cidade ainda com partes em ruínas decorrentes das lutas contra as invasões holandesas. As ruas, becos, construções são sujas e frequentadas por uma série de maus elementos que compunham a população da época: boêmios, prostitutas, aventureiros, bêbados e criminosos de todos os tipos.

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Padre Antonio Vieira (Ravasco)

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No Brasil desse período (e acredito que não só nesse período…), os governadores de províncias possuíam poderes extremos, saqueavam cofres públicos, mandavam e desmandavam conforme benefícios próprios e deixavam o povo em total desamparo. A metrópole portuguesa fechava os olhos diante dessa situação talvez pela distância, talvez por saber após os acontecimentos, talvez por não se importar muito. Antonio de Souza de Menezes, o Braço de Prata, era um governador opressor e cruel, conduzia um regime de brutalidade contra seus inimigos e os que manifestavam discordância com os seus atos. Frente a isso, temos um grupo de opositores composto por membros da família Ravasco – da qual padre Vieira faz parte –, pelo poeta Gregório de Matos, por jesuítas e representantes políticos e religiosos insatisfeitos com os política do governador.

O texto inicia, então, com um crime: Antonio de Brito e mais sete amigos atacam, matam e decepam a mão do alcaide-mor Francisco Teles de Menezes, considerado o braço direito do governador. Após a notícia da morte, nomeia-se o irmão Antonio de Teles de Menezes e se inicia uma perseguição implacável aos criminosos, que estavam escondidos no Colégio Jesuíta. Bernardo Vieira Ravasco – secretário do governo, irmão do padre Antônio Vieira e pai de Gonçalo Ravasco, um dos envolvidos no crime – vai ao colégio para apoiar os homiziados e, ao sair, leva consigo a mão do alcaide para que esta não sirva de prova caso fosse encontrada junto ao grupo. Entrega à Maria Berco, dama de companhia de sua filha Bernardina, para que fosse jogada em algum lugar longe dali. Maria Berco, apesar das orientações de Bernardo Ravasco, abre o pacote e acaba ficando com o anel que estava na mão decepada do alcaide morto. Mais tarde será presa por causa disso.

O governador ignora o fato de o colégio estar sob a proteção da Igreja e o invade, prendendo Antonio Brito e alguns dos envolvidos. Gonçalo Ravasco, Gregório de Matos, Luiz Bonicho são alguns dos que não estavam no local durante a invasão, escapando das mãos do governador. Após tortura, Antonio de Brito revela o nome de seis companheiros. Fica a dúvida se Bernardo Ravasco ou Gregório de Matos participou do ocorrido. De qualquer forma, ambos são acusados pelo governador, já que Bernardo Ravasco é não somente inimigo político do governador mas irmão de uma figura que é assumidamente contra o governo da época, e, Gregório de Matos por suas sátiras contundentes: o poeta criticava a tudo e a todos usando palavras incisivas e linguagem vulgar para ridicularizar o governo, a Bahia, os políticos e até a igreja.

A trama desenvolve-se a partir da vingança do governador, a tentativa de fuga dos opositores e o apoio daqueles que desejam mudanças. Durante a leitura, vamos conhecendo os hábitos da população dessa época, o cenário do Brasil Colonial, a política, os personagens de nossa história, os escritos de Vieira, os versos do Boca do Inferno e muito mais.

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Gostei muito da leitura apesar de lutar com as palavras no começo. O vocabulário é muito rico e retoma à linguagem da época, o que me agradou muito pois instigou a minha imaginação (eu realmente me senti no século XVII!). Algumas pessoas se aborrecem um pouco com as palavras de baixo calão presentes na obra, principalmente nos diálogos e versos de Gregório de Matos. Sim, o texto é repleto de expressões vulgares, o que me fez admirar mais ainda a escritora já que ela conseguiu reproduzir com seriedade a escrita de um grande poeta brasileiro de forma bastante verossímil. Gregório de Matos é conhecido por sua linguagem despojada, libertina e, muitas vezes, depravada e era exatamente por isso que ele incomodava os políticos da época, afinal, ninguém gosta de ouvir a verdade nua e crua sobre os próprios maus hábitos, não é mesmo?

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assinatura ana karina

 

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