Universo Paralelo #10: Resenha Espíritos de Gelo (2/10) e Fios de Prata (3/10)

Já que dois dos livros do Desafio de Férias são do jovem autor Raphael Draccon, nada mais justo que uma resenha dupla: a exploração do mito urbano em Espíritos de Gelo e uma trama que trabalha o onírico em Fios de Prata: Reconstruindo Sandman.

Raphael Draccon é autor, roteirista e atualmente escritor da Rocco. É mais conhecido pela trilogia Dragões de Éter, lançada pela LeYa, que trata de um universo fantástico que conta com elementos dos contos de fadas. Dragões de Éter já vendeu mais de 250 mil exemplares e as obras de Draccon já foram lançadas no exterior.

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Livro: Espíritos de Gelo
Autor: Raphael Draccon
Lançamento: 2011 (em Portugal)                   
Editora: LeYa
Páginas: 176
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Sinopse

Um homem acorda acorrentado com os braços para cima em uma sala escura, com dois torturadores vestidos com detalhes masoquistas ao lado e um interrogador baixinho, vestido com roupas sociais e uma camisa surrada do Black Sabbath. Eles o informam que ele acordou em uma banheira sem um rim e sofreu um choque amnésico, que o impede de lembrar os detalhes. Assim sendo, eles partem do princípio de que outros choques traumáticos podem desbloquear essas memórias, se necessários. E se iniciam as piores partes. O livro faz referências à lenda urbana da banheira de gelo, às lendas ao redor da história do rock’n roll e até às motivações e psicologia ao redor da criação de lendas urbanas.

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Violência, sexo e poder. E não é Game of Thrones.

Lançado inicialmente em Portugal como parte de uma série de contos inspirados em lendas urbanas, Espíritos de Gelo foi uma surpresa em muitos sentidos. O primeiro foi que é muito diferente de Dragões de Éter, já que a temática foge da fantasia já característica de Draccon. Além disso, a história em si e os rumos que ela toma são muito imprevisíveis, incluindo o final um tanto controverso e surpreendente.

O modo como a história começa já é bem intrigante por si só: um homem acorda acorrentado em uma sala fétida e mal iluminada, onde um interrogador e dois carrascos o torturam para que ele se lembre de como foi parar em uma banheira de gelo sem um rim. É nessa premissa que a história se desenvolve, sendo intercalada pelos flashbacks do protagonista (que não tem o nome revelado) e os momentos no cativeiro, que incluem métodos de tortura dignos de Hannibal e diálogos entre o interrogador e o protagonista, dos mais diversos temas (dos mais diversos mesmo). Ao longo do livro, o personagem torturado lembra-se desde sua infância e adolescência, a influência do pai, e a conexão com o presente começa a se estabelecer quando ele se lembra da namorada, Mariana. Ela o leva a conhecer uma bizarra estranha seita para ricaços que envolve sexo e manifestações religiosas, coordenada por um guru. Com o desenvolvimento da história, o protagonista relembra aos poucos os fatos que o levaram à situação do início do livro.

Em suas 176 páginas, Espíritos de Gelo é envolvente, e se caracteriza como uma daquelas “leituras de um dia”. Apesar de em alguns momentos parecer se prender demais em subtramas desnecessárias, consegue ser dinâmico e uma leitura fácil. Quanto aos personagens, foi um pouco frustrante para mim, pode-se assim dizer. Não porque sejam necessariamente mal desenvolvidos, mas pelo fato de não ter encontrado nenhum personagem que realmente tenha gostado, principalmente o protagonista, que não consegui ter o mínimo de empatia.

Uma das características mais marcantes do livro é a referência a elementos da cultura pop. Livros, filmes, séries, internet (principalmente o Twitter) e rock estão presentes em vários dos diálogos e nas narrações do protagonista. Em alguns momentos essas referências são interessantes e até um pouco cômicas, e geram alguns diálogos bem interessantes, incluindo alguns sobre mitos do rock. Mas em outros o excesso dessa ferramenta torna-se maçante e um pouco incoerente (quem pensa sobre séries quando está sofrendo tortura intensa?). Já a tortura apresentada é muito bem feita, um dos pontos altos do livro. As descrições são bem realistas, e pode-se realmente imaginar o ambiente onde tudo acontece e o desespero do protagonista. Uma das características da escrita de Draccon que pode ser notada tanto nesse livro quanto em Dragões de Éter é a grande presença de metáforas, recurso explorado por ele para descrever principalmente os sentimentos dos personagens e a reação deles a certas situações.

O livro possui várias reviravoltas ao longo da trama, e o final é bem controverso (tentarei evitar spoilers). Em um acontecimento específico (o motivo pelo qual ele foi parar na banheira de gelo), foi bem clichê, não apresentando algo muito diferente do que se esperaria das condições em que estava o protagonista. Os acontecimentos que finalizam o livro (quando ele está no cativeiro) e a ideia deles são realmente bem interessantes, e foi uma ótima surpresa. Essa perspectiva caracteriza bem o livro todo: uma história com seus altos e baixos, em que o autor inova, mas por vezes erra a medida. Uma daquelas histórias em que o jeito é ler e tirar as próprias conclusões.

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 “Eu gelei. Sem brincadeira; foi como se o Iceman, dos X-Men, tivesse assoprado na minha nuca depois de tomar um sundae. Ou se um Sub-Zero encostasse os dedos na minha coluna vertebral, antes de um fatality”

 

Nota do livro: 3,5/5

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Uma leitura rápida e envolvente que surpreende pelas reviravoltas, mas decepciona em alguns tropeços do autor.

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Livro: Fios de Prata: Reconstruindo Sandman
Autor: Raphael Draccon
Lançamento: 2012
Editora: LeYa
Páginas: 352

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Sinopse

Mikael Santiago realizou o sonho de milhares de garotos. Aos 22 anos era o jogador brasileiro com o passe mais caro da história do futebol. Mas à noite os sonhos o amedrontavam. Às vezes, o que está por trás de um simples sonho – ou pesadelo – é muito maior que um desejo inconsciente. Há séculos, Madelein, atual madrinha das nove filhas de Zeus, tornou-se senhora de um condado no Sonhar, responsável por estimular os sonhos despertos dos mortais. Uma jogada ambiciosa que acaba por iniciar uma guerra épica envolvendo os três deuses Morpheus, Phantasos e Phobetor, traz desordem a todo o planeta Terra e ameaça os fios de prata de mais de sete bilhões de sonhadores terrestres. Envolvido em meio a sonhos lúcidos e viagens astrais perigosas, a busca de Mikael pelo espírito da mulher amada, entretanto, torna-se peça fundamental em meio a uma guerra onírica. E coloca a prova sua promessa de ir até o inferno por sua amada.

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Inicialmente, gostaria de destacar que nunca li Sandman, série de HQ’s criada por Neil Gaiman (mas pretendo). Portanto, apesar do Reconstruindo Sandman como subtítulo que acabei ignorando não sei dizer até que ponto é inspiração de Gaiman e que elementos são criatividade de Draccon.

A história em si é desenvolvida em duas realidades, por assim dizer: a primeira é o mundo em que vivemos, e a segunda é o mundo imaterial que contém o plano do Sonhar e outros planos (onde vivem os deuses, anjos, e é para onde a consciência dos humanos vai enquanto sonham). A ligação entre essas realidades e como cada ser transita entre elas é descrita com detalhes ao longo da narrativa, mas não me prenderei a tais detalhes. O fato é que existem os sonhadores, que são os seres humanos, que visitam os planos imateriais, e quando sonham e visitam esses planos se ligam ao seu corpo físico por meio de um fio de prata.

O plano do Sonhar, que recebe os sonhadores, é governado pelos três deuses menores filhos do deus do sono Hypnos: Morpheus, Phantasos e Phobetor. Phobetor é o deus dos pesadelos (e abriga em seus domínios até o Inferno), Phantasos é o deus da fantasia (com elfos, sátiros, entre outros) e Morpheus é o moldador dos sonhos dos humanos, que por meio de uma trapaça se tornou o mais famoso na Terra, sendo conhecido como Sandman. Além disso, existe um condado nas terras de Morpheus comandado por Madeleine, um anjo que é a Senhora dos Sonhos Despertos, que inspira sonhadores humanos. A ambição dos deuses menores e de Madeleine acaba criando um conflito entre os irmãos, que leva a uma grande guerra no plano do Sonhar. Tal guerra está profundamente relacionada aos seres humanos, sendo que os protagonistas exercem papel fundamental nela. São eles Mikael Santiago e Ariana Rochembach, dois atletas brasileiros mundialmente famosos. Mikael tem 22 anos é o jogador de futebol mais famoso do mundo, e está em Paris completando sua transferência para o Paris Saint-Germain, esta que é a mais cara da história. Lá, ele conhece a jovem Ariana, uma das mais promissoras ginastas do mundo. Eles se conhecem e se apaixonam. Ele tem tido pesadelos todas as noites por dezoito meses, e ela sonhos inspirados, mas devido a planos dos deuses, a situação se inverte e ele precisará salvá-la de um dos lordes do Inferno nos planos do Sonhar (sombrio, não?). E através dessa jornada e das disputas nos planos imateriais é que a história se desenvolve.

Fios de Prata representa bem a fantasia pela qual Draccon se popularizou, e conta com a escrita que por vezes lembra a já apresentada em Dragões de Éter. O livro se inicia em um período de transição tanto para os protagonistas quanto para os deuses nos planos do Sonhar: existe uma instabilidade, e o que aparentemente está bem muda aos poucos com pistas deixadas aos poucos durante a história, e que por fim evolui para uma grande guerra. O livro é dividido em três partes, que caracterizam bem o crescimento dos personagens e o surgimento dos conflitos, que acontece por etapas. O que me incomodou por vezes foi a lentidão de Draccon em desenvolver os acontecimentos, principalmente durante a grande batalha do livro, que se estende por um tempo desnecessário. No entanto, a forma como ele descreve eventos relacionados simultaneamente, inclusive um mesmo evento contado por perspectivas de personagens diferentes, se encaixa muito bem na história (e inevitavelmente me lembra Dan Brown).  A narrativa, embora perca a dinamicidade em alguns momentos, flui com tranqüilidade, embora algumas reflexões sobre os planos imateriais sejam bem abstratas.

Os personagens principais não decepcionam, embora não tenha me conectado tão bem com os mesmos. Os personagens que mais me interessaram foram os retratados no plano do Sonhar: os deuses com suas personalidades instáveis e os seres fantásticos que habitam aqueles locais. Já as descrições dos deuses, anjos e demônios não deixaram a desejar em nenhum momento, assim como as dos cenários: como toda boa história de fantasia necessita, as descrições são bem trabalhadas, de modo que seja possível visualizar os universos apresentados pelo autor.

O que mais me surpreendeu foi o competente trabalho de pesquisa feito por Draccon. Já que cada acontecimento no plano dos sonhos tem consequências no mundo real, o autor utilizou fatos diversos para caracterizar essa conexão, sendo alguns fictícios e vários deles reais. E isso se estendeu por diversos assuntos, desde assassinatos até o funcionamento do mercado do futebol moderno, todos muito bem desenvolvidos.

Como de costume, ele mais uma vez faz várias referências à cultura pop, muito bem colocadas por sinal, apesar das citações um pouco exaustivas à Tolkien e Rowling (entendemos que você admira muito eles, Draccon, eu também). Além destes, são citados autores estrangeiros e brasileiros (Castro Alves, Cecília Meireles, Kafka, Wells, Gaiman), animes, livros, figuras mitológicas, personagens bíblicos, bandas como U2 e Metallica, entre outros diversos, desde Buda até criminosos reais. Há até um dragão Balerion na trama (e nada me tira da cabeça que foi inspirado no dragão Balerion, de Aegon, o Conquistador, presente em As Crônicas de Gelo e Fogo). Alguns dos momentos que achei mais interessantes, não só entre essas referências, mas de todo o livro, são aqueles em que Mikael atravessa os domínios de Madelein, Senhora dos Sonhos Despertos. São ideias muito interessantes que remetem à criatividade humana, e à importância dos sonhos (como objetivos e inspiração) para as pessoas. O trecho do bosque dos espíritos escritores foi um dos mais marcantes para mim, assim como as das estradas das Artes.

 

 

 “Tu inspiraste Rowling, e foi nas terras de Morpheus que se moldou Hogwarts. Tu inspiraste Tolkien, e foi nas terras de Phantasos que se anexaram as extensões de Terra-Média. Tu inspiraste Lovecraft, e em minhas terras se fixou Miskatonic. Então eu te pergunto com sinceridade, anjo: até onde vai tua vontade de ser coadjuvante em um mundo de formas e pensamentos?”

 

Fios de Prata é um bom livro de fantasia, com citações e idéias interessantes, uma boa história e com muitas reviravoltas, principalmente o plot twist que finaliza o livro. Tem suas falhas, e poderia ser melhor, mas vale a pena ser lido pela criatividade e pela escrita marcante de Draccon.

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Nota do livro: 4/5

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Com um trabalho de pesquisa notável, criações interessantes e um final surpreendente, é uma boa opção quando se trata de fantasia entre os nacionais. Porém em certos momentos os eventos e reflexões se prolongam desnecessariamente, o que pode ser cansativo.

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assinatura karen caires

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14 thoughts on “Universo Paralelo #10: Resenha Espíritos de Gelo (2/10) e Fios de Prata (3/10)

  1. Gostei muito de você ter colocado duas resenhas no mesmo post, achei bem bacana *o* Quanto aos livros resenhados, eu me interessei mais pelo primeiro, achei a capa sinistra e muito bonita, a sinopse também está incrível e com a sua resenha, fiquei muito curiosa sobre a história *-*
    Beijos :*
    Larissa – Srta. Bookaholic

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    • A capa realmente é muito interessante e sombria, assim como a história segue vários rumos inesperados. Espero que goste da história, é daquelas que você não consegue parar de ler até terminar. Obrigada por comentar!

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    • Realmente a obra mais famosa de Draccon continua sendo Dragões de Éter, que já li também. Apesar de ter achado que no primeiro livro a história demore um pouco para se desenvolver, a trilogia em si é bem interessante, os personagens são cativantes e os livros são envolventes, e recomendo se você gosta de fantasia.

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    • Obrigada! Quando se trata de fantasia nacional atualmente, ele é um dos nomes mais famosos. Recomendo os livros de Draccon, ele tem uma escrita bem diferente e marcante.

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  2. Oi, Karen!
    Sou suspeita para falar, mas realmente sou muito fã dos teus textos! hehehe… Adorei as duas resenhas, fiquei mais interessada no primeiro livro, apesar de tu gostares mais do outro.
    Estou tentando cumprir o desafio, mas está complicado. Espero que consiga!
    Beijo.

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    • hahaha Obrigada, Karina. Foi interessante, na verdade: achei o primeiro livro mais envolvente e intrigante, porém o segundo me pareceu ter uma história mais bem estruturada e um trabalho de pesquisa mais interessante. Boa sorte no seu desafio!

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    • Obrigada! Não precisa ficar com medo de Espíritos de Gelo não hahaha Realmente achei a arte da capa de Fios de Prata muito bem feita, e combina bem com a fantasia apresentada na história. Espero que goste do livro.

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  3. Olá Karen, fiquei muito feliz em encontrar na sua resenha mais uma pessoa que teve a mente aberta em relação ao livro. Digo isso pois já li muitas criticas injustas de pessoas que simplesmente o deixaram de lado por motivos como, por exemplo, achar arrogante demais reconstruir sandman. Também conheço pouco desse famoso personagem das graphic novels do Neil Gaiman e da mitologia grega, mas acho que as referências a ele, como tantas outras, são tão bem utilizadas que tornam o livro do Draccon algo único na literatura fantástica nacional. Vale a pena dar uma chance a ele justamente por toda emoção entregue durante os capítulos e também por essa habilidade em utilizar referências para criar algo único e interessante. Com certeza, está nos meus livros favoritos.

    Ainda não li Espiritos de Gelo, mas está na lista, rs. Aproveitando a conversa, gostaria muito de convidá-la para conhecer meu blog e, porque não, falarmos mais sobre esse livro já que além de blog também publico um podcast cujo episódio mais recente é justamente sobre Fios de Prata. Sua participação lá também será muito bem-vinda. Até mais.

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    • Oi Marcus, obrigada pelo convite! Realmente, acho muito justo que qualquer autor possa criar uma obra homenageando outro, especialmente quando se faz isso com competência e dedicação, como o Draccon. Em todos os livros que já li dele, ele coloca várias referências na história, das mais variadas, e isso enriquece a obra. É difícil encontrar autores brasileiros tão ousados quando se fala de fantasia, e espero que mais brasileiros se aventurem no gênero. Pode deixar, vou conhecer seu blog 🙂

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