Sétima Arte #10: Cisne Negro

 

FICHA TÉCNICA:
Filme: Cisne Negro (Black Swan)
Ano de Lançamento: 2010
Direção de Darren Aronofsky
Roteiro de Mark Heyman, Andres Heinz e John McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder.
Duração/Gênero: 108 minutos/ suspense; drama psicológico.

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black swan

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“Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.”
 
(Cecília Meireles, Trecho de A bailarina)

 

 

               Quando eu era pequena minha mãe tinha um sonho: ela queria que um dia eu me tornasse uma bailarina. Não fazia pressão, nem nada, mas queria mesmo assim. Não era esse o meu desejo, não queria ser bailarina, nunca me passou pela cabeça de menina viver a vida nas pontas dos pés. Mas, um dia, em frente à minha antiga casa, havia uma pequena escola e lá começaram a dar aula de balé. Foi como um sonho para minha mãe e logo, um pesadelo para mim. Bravamente, consegui aguentar o sonho da minha mãe por uma longa e desgastante semana, uma semana que eu por vezes me forço a esquecer, de tão insuportável que foi. Definitivamente, eu não me encaixava naquele mundo de caixa de música. Lembro-me de receber alguns elogios da professora, mas, como era difícil aguentar várias “Emílias” juntas que achavam (deus sabe o porquê) que nós iriamos interpretar O Lago dos Cisnes e aquela aula era uma audição para a próxima montagem de Tchaikovsky. Talvez, por isso, quando descobri Cisne Negro assisti ao filme mais de dez vezes. Por Nina, pela pressão que ela sofre e pela eterna busca da perfeição metódica e estática dos movimentos. Nina é uma bailarina que sofre o que nós, reles mortais, sofremos no dia-a-dia. Cisne Negro explora o limite do ser humano, e para quem já algum dia, teve o desprazer de alcançar esse ápice, irá entender o sofrimento e a angústia de Nina.

               João Cabral de Melo Neto diria: A bailarina feita de/borracha e pássaro/dança no pavimento/anterior do sonho (in: Poesia Completa). É assim que o filme fisga logo na cena que se inicia: com um sonho da virginal Nina Sayers (Natalie Portman, em seu papel mais ousadinho depois de Closer). É nesse sonho introdutório que Darren Aronofsky mostra o ritmo que esse drama psicológico vai atingir, não apenas sua personagem principal, mas quem estiver assistindo. O filme inteiro é sustentando por um(a) enorme te(n)são, como se estivéssemos vendo em câmera lenta algo muito valioso se estraçalhando em ínfimos pedaços.

               O filme é situado em Nova York, e apresenta Nina, uma bailarina profissional que há anos espera pela chance do grande papel. E chega com a aposentadoria (forçada, diga-se de passagem) da estrela maior da companhia, Beth (Winona Ryder). Com o fim da carreira de Beth, a companhia vai à busca da sua nova estrela, e para estrear a temporada, a montagem escolhida é o Lago dos Cisnes. Nina é escolhida como a Rainha dos Cisnes e a substituta de Beth, e aí começa o grande desenrolar do filme: na vida real, Nina é a personificação do cisne branco, virginal e pura, mas será que ela consegue transformar-se na gêmea sedutora, Odile (o cisne negro)? Além da pressão que (a quero-ser-perfeita) Nina tem que sofrer para a nova montagem “crua e visceral” do Lago dos Cisnes, a pudica moça ainda tem que lidar com o diretor canastrão Thomas Leroy (Vincent Cassel, lindo!), com a chegada de Lily (Mila Kunis), uma bailarina de São Francisco que chama a atenção pela desenvoltura (Lily, na vida real, faz a vez do cisne negro) e desponta como a principal rival de Nina e com superproteção da mãe (a maravilhosa, Barbara Hershey).

               Assim como Atlas, Nina carrega o peso do mundo nas costas frágeis e arranhada. Na física a pressão significa uma força que está sendo exercida em alguma coisa, podendo ser determinada por alguns instrumentos. Em Cisne Negro, a pressão de Nina pode ser determinada pelas alucinações que a bailarina tem durante os mais de cem minutos de filme, seja na cena do metrô, na qual Nina vê uma mulher parecida com ela, fazendo os mesmos movimentos, como se fosse o seu espelho; seja na cena agoniante da festa em que a unha descasca ou na cena em que ela tem um sonho erótico com Lily, ou em tantos outros passeios pela loucura de Nina.

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black swan 2

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               O Balé, não é um mero plano de fundo, Aronofsky mergulha nesse mundo, que a olho nu é um mundo cor-de-rosa cheio de ursinhos de pelúcias, como o quarto de Nina, mas dentro é um emaranhado de sentimentos e é regido constantemente pela pressão psicológica da busca pelo impulso e pela doce libertação dos grilhões que ela guarda em um relicário. O filme, na minha visão, é a metamorfose que Nina passa da doçura e inocência de uma menina que ainda não sabe o que esperar de um mundo tão cru e bárbaro, para a mulher que consegue, mesmo que de forma tão grotesca, seduzir e envolver. Nina tem que deixar a fantasia de carneiro de Odette cair e buscar a fantasia de lobo de Odile.

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Trailer do filme:

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assinatura maria

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