Um Eco para vivos

cemitério de praga
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Aprofundar-se em o Cemitério de Praga, o novo romance de Umberto Eco, é reencontrar-se sempre com a própria história da humanidade. O autor que assombrou os pilares do mundo com sua célebre obra, O Nome da Rosa, escreve mais de três décadas depois um novo texto extraordinário, retratando outro período histórico da Europa. O pensamento, a organização social e a cultura tão comuns para reconhecermos um relato histórico vão ser o epicentro da narrativa de Eco, na fisiologia da trama e na apresentação dos personagens, dos quais apenas um é verdadeiramente ficcional e é o protagonista, Simone Simonini.
A redução que muitas vezes é feita em ambiente escolar sobre a História da Humanidade, é posta em xeque durante a leitura do romance de Eco. O autor não quer que o leitor separe os personagens da obra em heróis e vilões, muito comuns quando se discute os eventos da história. Não, Eco intima os seus leitores a mergulhar em cada pensamento, em cada personagem e, principalmente, a desconfiar de suas certezas quanto aos grupos, quanto às práticas do comércio, quanto ao que se sabe sobre a organização social e política de um período e quanto aos personagens históricos e o que se sabe sobre eles como o jovem médico, Sigmund Freud, que no romance trata seus pacientes com hipnoses e anestésicos locais, como a cocaína. O resultado predestinado, como é retratado sobre os fatos e registros históricos, ganham nova leitura, novos detalhes e marcam o texto com a assinatura desse autor consagrado.
É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas.”
A crítica e análise histórica aparecem e persistem, reforçando o mérito de Umberto Eco como pesquisador, escritor e romancista. Ele tem um rigor de pesquisa histórica que chega a ser cruel para o leitor e pode assombrá-lo, ao mesmo tempo, consegue expressar os registros de forma totalmente original e arrebatadora.
Sempre conheci pessoas que temiam o complô de algum inimigo oculto os judeus para vovô, os maçons para os jesuítas, os jesuítas para meu pai garibaldino, os carbonários para os reis de meia Europa, o rei fomentado pelos padres para meus colegas mazzinianos, os Iluminados da Baviera para as polícias de meio mundo e, pronto, quem sabe quanta gente existe por aí que pensa estar ameaçada por uma conspiração”. — escrito de Simonini.
Eco vai mostrar que em períodos de crises, teorias conspiratórias surgem de forma a prender pessoas ao seu próprio tempo, impedindo-as de enxergar a realidade, de extrapolar um pensamento colocado ou de refutar os estereótipos; não tendo um olhar mais crítico e completo, porém, mais influenciado por terceiros, muitas vezes sem evidências, apenas reforçado por um pensamento colocado na sociedade, sobre alguém ou alguma situação.
Ele denuncia a sociedade do século XIX período em que ocorre a trama com uma ardilosa malícia. Mas ao fazer isso, ele torna-se atemporal, pois escolhe como temática, a questão de se colocar um grupo como expiação para outros fatos sociais, ou centralizar todos os problemas como sendo causa de um único grupo. Resultado: todos querem perseguir esse grupo como medida para se livrar dos problemas.
Não convém sobrecarregar a cabeça dos agentes do governo com demasiadas informações, eles apenas querem ideias claras e simples, preto no branco, bons e maus, e o mal deve ser um só”.
Assim, Simonini aparece na história, na justificativa de investigar ou espionar assassinatos com teor político e que ameaçam o futuro da Europa. Ele, um capitão, revela-se na trama como um falsário, mas a serviço de muitos governos, e que cria seus complôs, e escolhe como alvo principal os judeus, um grupo minoritário na Europa.
Os judeus são a classe que o protagonista vai apontar como a principal responsável pelas misérias e pelos problemas da Europa. Para ele, é necessária a existência de um inimigo comum, para que o povo tenha sempre a esperança de que seus problemas podem ser resolvidos facilmente, apontando, para isso, um único causador. O ódio a esse grupo ou a esse inimigo comum é o amigo do povo. O ódio é a paixão primordial civil pensa o capitão.
Simone Sominini falsifica documentos na tentativa de incriminar os judeus, como no caso dos Dreyfus — que conspiravam contra maçons, contra Garibaldi que lutava pela reunificação da Itália; e para a afirmação dos registros dos “Protocolos dos Sábios de Sião” — textos falsos e tendenciosos que imputavam a crença de que com os judeus existia um plano de dominação do mundo.
O capitão e falsário é a escolha anti-heroica do autor para mostrar que a história pode ser forjada por armações, artimanhas ou mesmo por documentos históricos falsos, obrigando o leitor a mergulhar nesse mistério e contestando em todo tempo se suas verdades aprendidas resistem à crítica. Simonini é um pulha, uma pilhéria, movido pelo ódio, ao passo que é também um espertalhão, pois recebe dinheiro de todos os lados, e atende a quem o paga mais.
A Europa ao final do século XIX está em conflito e prestes a desencadear os motivos que a fizeram ser o principal palco da Primeira Grande Guerra Mundial. É o momento em que a Europa rompe com toda a estrutura medieval de organização social como a vida em castelos, em função da nobreza e sobre outras impressões medievais , para surgir como um continente contemporâneo e potente, com grandes nações para servirem de referências ao mundo.
As disputas entre Garibaldi e Mazzini na península itálica, os conflitos políticos na velha França vivendo ainda os resquícios da revolução que retiraram do Estado, o absolutismo , e os conflitos na República Tcheca que no século XX une eslavos à ideologia de criar a “Grande Sérvia”, trazem ao romance o encontro entre o relato histórico fiel e sob uma rigorosa pesquisa, e a ficção.
No romance há também os registros de cultos de magia negra, da maçonaria, além dos judeus, que, juntamente com outras manifestações de fé, foram colocados como vilões para o cristianismo na Europa e acusados como conspiradores. É um romance sobre a origem do preconceito cultural e de raças, que vai se traduzir em conflitos pela Europa.
Não é uma obra fácil de ler à primeira tentativa, pode exigir que o leitor releia suas páginas algumas vezes, ou seja instigado a pesquisar sobre os registros ali colocados; por outro lado, isso deve estimulá-lo a ir até o final da romance, que não é pequeno. As muitas vozes presentes no texto também exigem uma leitura atenta e para os detalhes ali expressos, transcritos com a identidade de um autor genial que neste ano completou 80 anos.
Um eco para os ouvidos dos que ainda estão vivos. Um suspense a prender o leitor em cada parte da trama, mas a recompensá-lo com um final surpreendente e para a descoberta do que é de verdade o Cemitério de Praga, em todos os seus sentidos; não somente por ser um lugar de enterrar os judeus conspiradores da ordem e contra a fé cristã.
Como o senhor deve ter compreendido, caro advogado, frequentemente a política é decidida por nós, humildes servidores do estado, mais do que por aqueles que aos olhos do povo, governam […]”.
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3
Escritor, profissional de saúde e
apaixonado por leitura e por bons
livros!
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3 thoughts on “Um Eco para vivos

  1. O livro parece ser bem interessante, mas não estou num momento bom para leituras mais lentas. São poucos os livros com fundo histórico que me chamam atenção e conseguem me prender na leitura e esse parece ser um desses.
    Não conhecia esse livro. Quem sabe, em um momento futuro eu o leia. 🙂
    Ótimo texto!!!
    Thaisa – http://minhacontracapa.com.br/

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