Sétima Arte #8: O olhar e o desconhecido em Closer

Ficha Técnica:

Filme: Closer – Perto Demais (Closer)
Ano de Lançamento: 2004
Direção: Mike Nichols
Roteiro: Patrick Marber baseado na peça homônima de Patrick Marber
Elenco: Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen.
Duração/Gênero: 104 minutos, Drama.

Sinopse: Closer conta a história de um “retângulo amoroso” que acaba se envolvendo em uma trama tortuosa, cheia de traições e inconstantes emocionais.

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closer

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“Se você acredita em amor a primeira vista, você nunca para de procurar.” (Pôster do filme)

 

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“Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores.”
Padre Antônio Vieira, Sermão do Mandato, 1643, VI).

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“I can’t take my mind… My mind… my mind… ‘Til I find somebody new…”
(Damien Rice, The Blower’s Daughter)

 

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Closer é baseado em uma peça homônima de 1997, escrita por Patrick Marber, que também roteiriza o filme de Mike Nichols, em 2004. E mesmo que alguém não saiba dessa pequena informação, ainda assim notará que, mesmo transformando a história dos tablados para o cinema, a essência teatral ainda permanece intacta, talvez, porque Mike Nichols goste dessas mudanças de linguagens, visto que sua obra prima, Quem tem medo de Vírgina Wolf?, de 1966, também era uma peça que foi transformada extraordinariamente para o cinema. Assim como em Quem tem medo de Vírgina Wolf?, Closer prima pelo texto, pela imagem poética, mas não deixa de lado a importância do cenário, mesmo que opte pela pouca mudança de cenários e pela neutralidade das cores dos mesmos, ainda sim, o cenário minimalista é uma figura importante desse filme.

Damien Rice compõe a música tema do filme, que embala uma das cenas de abertura mais emblemáticas do cinema contemporâneo: em letras gigantes vermelhas em um fundo negro, aparece o nome Closer, e então Natalie Portman (Thor: Um Mundo Sombrio), em câmera lenta, surge caminhando em um lugar que, de imediato, parece ser algum tipo de centro Londrino, abarrotado de homens e mulheres com roupas neutras e rostos indiferentes, em oposição, Alice, que mais tarde será introduzida com esse nome, caminha com seus cabelos curtos vermelhos e uma minissaia, contrastando com aquele ambiente minimalista. Do outro lado, aparece Dan (Jude Law, O Grande Hotel Budapeste), que só ganha destaque no plano, por ser um rosto conhecido de outros filmes, e enquanto a música melancólica de Rice desenrola-se, os dois personagens se encontram no meio de uma multidão e “I Can’t Take my Eyes off you…” grita incessantemente para chamar atenção ao nascer do flerte dos estranhos. Interrompendo a troca de olhares, Alice, entorpecida, não nota que o “trânsito vem da direita” e é atropelada por um táxi londrino. Ao ponto que, Dan corre para socorrê-la, a história melodramática começa. Enquanto Dan leva Alice para o hospital e caminha com ela pelas ruas de Londres, um vai e vem de uma conversa introdutória dos dois desconhecidos acontece.

Na cena que se segue, aparece Anna (Julia Roberts, Álbum de Família), em seu estúdio, com o até então, estranho, Dan, fotografando-o para a capa de seu livro, que é dedicado à Alice. Então, é mais uma vez que o olhar e o desconhecido se cruzam, e as tensões do excitante e do problemático se esbarram, pois Alice e Dan já estão juntos há alguns meses. Anna, com sua capa fria, indiferente e intelectual, elogia o livro de Dan, que cheio de vaidade agradece e a questiona sobre a visão dela sobre o livro, e Anna pergunta sobre como Alice se sente tendo sua vida roubada por ele, e ele a corrige: “emprestada”. Pelo estúdio de Anna há fotos espalhadas de estranhos, fotos de rostos e bustos, como se ela quisesse congelar aqueles sentimentos e lhes roubar os sentimentos daquele exato momento. Dan retrucará a pergunta feita por Anna em relação aos estranhos fotografados, ao passo que ela se defende da mesma maneira. E, o mimetismo surge, pois, ambos usam a realidade, conforme seus pontos de vista, para idealizar e estetizar uma arte.

Anna continua mantendo a distância e a frieza, mas Dan insiste em flertar com a fotógrafa.  Enquanto Anna fixa seu olhar na lente da câmera, ela cria uma imunidade contra os flertes de Dan, mas em um dado momento, os olhares se cruzam diretamente, e Dan a chama para mais perto, e ela não resiste, e então eles se beijam. Um momento de constrangimento segue os personagens, mas logo Anna retoma a consciência e volta para si. A campainha toca, e Alice chega, enquanto Alice vai ao banheiro, Dan insiste em ver Anna novamente, mas ela refuta. Alice então, de volta, pede que Dan se retire, pois sempre quis que alguém profissional tirasse uma foto sua. A sós, Alice diz que escutou a conversa de Anna e Dan, a fotógrafa tenta se desculpar, mas, rudemente, Alice diz: “Apenas tire a minha foto”.

Abro um parêntese para falar da relação de tempo desse filme: Não há um momento em que Nichols avisa “Dois meses depois” e etc. É solto ao espectador, como em um quebra-cabeça, o filme volta e meia utiliza o recuso do flashback, o que não o torna um drama puro (drama puro é um termo do teatro, mas optei em usá-lo, pois Closer nasceu no teatro). Fecho o parêntese.

Na cena que se segue, Dan está sentado em um sofá, à frente de um notebook, em uma página virtual de sexo, onde inicia uma conversa. Dan inicia uma conversa com Larry (Clive Owen, do inédito Sin City: A Dame To Kill For) pelo chat, fingindo ser Anna. O close-up desta vez é no diálogo explicitamente sexual, sem incômodo ou constrangimento. Dan marca com Larry para se encontrarem em um aquário, que a verdadeira Anna, frequenta. Ao chegar ao Aquário, Larry encontra a verdadeira Anna, e a aborda diretamente, o que assusta Anna, mas logo ela explica o mal entendido os dois começam a conversar. A partir desse acontecimento, Larry e Anna iniciam um relacionamento.

Aos trancos e barrancos, o retângulo amoroso acaba caindo em uma narrativa circular, que para alguns é monótona, mas, aos meus humildes olhos, Closer é um retrato fiel dos relacionamentos modernos, da liquidez do sentimento. A visão de mostrar a paixão amorosa, onde os heróis deste drama são obrigados a navegar, mar adentro em plena tempestade, remexendo nos sentimentos mais profundos. Nada se esconde tudo é rudemente exposto, os olhares cúmplices e culposos, os beijos amargamente doces, e todos os flertes que, por vezes, se resumem a um olhar, cheio de lascividade.

Closer é um passear pela dor da alma humana coroando a ilusão característica dos românticos, o amor pelo viés de quatro personas, usando máscaras e se escondendo atrás de identidades falsas e de amores falsos. O filme propicia uma reflexão interessante: Será que podemos, um dia, acordar e retirar do armário uma das milhões de máscaras disponíveis, colocar, e fingir que amamos alguém, e ao final do dia, retirarmos a máscara e soltar um “não te amo mais” e seguir em frente sem olhar para trás?

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Trailer do filme

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Música tema do filme

 

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assinatura maria

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One thought on “Sétima Arte #8: O olhar e o desconhecido em Closer

  1. Eu era louca pra assistir…e logico assistir….pensei que teria outro rumo, outra historia, mas mesmo assim me apaixonei pela confusão de sentimentos….apesar de não desejar isso pra ninguém!!!

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