O queer na literatura juvenil

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Com nova capa, a obra Will & Will Um nome, um destino chega à sua última edição, com uma apresentação “clean” e totalmente arrojada, como tem sido tendência das grandes editoras, para criação de capas para o seus catálogos de livros infantojuvenis. O cinza da edição anterior abre espaço para a experimentação estética do azul em seus degradês, além dos desenhos.
Mas a diferença deste trabalho especificamente, agora na sua nova edição, não está somente na estética da capa, que vem sob o selo do grupo Record para obras de ficção infantis e juvenis, Galera. A diferença desta obra em relação a outros títulos do mesmo gênero artístico, o queer, é que não se trata de uma obra adulta e, sim, um queer voltado para o público adolescente e jovem.
Cada vez mais o gênero de literatura queer tem ganhado espaço na literatura mundial e, no Brasil, este nicho de mercado começa a ser visto pelas editoras, trazendo obras estrangeiras, como também, propiciando que autores nacionais publiquem trabalhos neste gênero. Na obra mais recente, vista por mim, encontra-se pelo selo “Novos Talentos da Literatura Brasileira” da Editora Novo Século, o livro A menina da casa grande, da escritora Amanda Marchi.
Mas afinal, o que é o gênero queer? O queer é talvez a marca mais importante de literatura quando o tema é literatura & sexualidade. Apresentando uma nova ideia frente ao modelo tradicional que é aquele de histórias de amor ou de tramas que envolvam sempre os gêneros masculino e feminino, como complemento ou oposição entre si, o queer vai apresentar tramas que envolvam pessoas do mesmo sexo, com temas que envolvam o sexo entre indivíduos “diferentes”, bem como, a sexualidade na humanidade a sensualidade e a valorização ao corpo , sem que isso seja feito com vulgaridade, mas colocando em condições de normalidade, esses assuntos, e como eles conversam com a sociedade. Porém, pela própria característica da abordagem, o gênero ainda encontra restrições, principalmente no Brasil. Muitas editoras ainda oscilam em ter em seu catálogo, obras que vinculem sexualidade a um texto ficcional, como contos e romances e, neste caso, obras que não abordem somente a heterossexualidade, mas abram espaço para a homo e a bissexualidade, ou bi e homoafetividade.
Então, sob uma nova tendência de pensamento e nova perspectiva de mundo sobre como são os relacionamentos, e de nicho a ser explorado e que vem sendo construído cada vez mais, o público juvenil ou “young adult” tem uma obra engraçada, direta e muito bem articulada a apresentar o conteúdo queer.
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E, nada melhor se a obra vier com a assinatura de dois dos maiores escritores da atualidade, para o público juvenil ou de jovens adultos, John Green e David Levithan. John Green que é autor de alguns dos Best-sellers mais lidos do mundo, A culpa é das estrelas, seu romance mais comentado e que ganhou recentemente adaptação para o cinema, e o Teorema de Katherine, vai se unir a David Levithan, autor dos Best-sellers Nick e Norah Uma Noite de Amor e Música e Todo dia, para escrever este romance.
A obra Will & Will Um nome, um destino apresenta dois personagens diferentes que aparentemente têm a coincidência de possuírem o mesmo nome e sobrenome, Will Grayson, e de viverem na mesma cidade, Chicago. A obra é inteiramente narrada em primeira pessoa, o que faz o leitor pensar por vezes de que se trata do mesmo personagem, um único Will. Mas não, são duas pessoas diferentes.
O primeiro Will, provavelmente escrito por John Green, pela característica da narrativa, é um jovem de classe média, que mora numa região mais abastada de Chicago, e que adora ouvir músicas de bandas alternativas de rock’n’roll e que vai se apaixonar por Jane, uma menina que será apresentada a ele, por seu melhor amigo, Tiny Cooper. Ele, juntamente com Tiny, um jovem gay assumido e simpático que consegue encantar a todos , vão formar o principal grupo de amigos e com suas “diferenças”, na história. O primeiro Will é, portanto, um jovem heterossexual e que aparece sempre nos capítulos com seu nome escrito em letras maiúsculas e minúsculas, o que para o leitor, o ajuda a distinguir sobre qual dos Wills é falado em cada parte da trama. Cada capítulo da história, um Will é retratado.
O segundo Will, o personagem de Levithan (por eliminação), é um gay que mora no subúrbio de Chicago e que trabalha numa farmácia para ajudar a mãe nas despesas da casa. Mesmo sendo gay, ele não se aceita como tal e, por vezes, durante a trama, ele vai mostrar ao leitor que está prestes a desencadear um quadro depressivo grave, ou vai de fato mergulhar na depressão, com frases muito comuns e recorrentes de quem se encontra em estado depressivo. Ele não se sente aceito, ele sente “nojo” de sua condição e quer de alguma maneira encontrar a sua liberdade, mas sem que isso seja deflagrado ou tomado por outros como uma vergonha. Ele não demonstra nenhum dos “rótulos” que procuram identificar os gays entre as pessoas, por exemplo, “todo gay gosta de Madonna”. Este Will não gosta nem um pouco de Madonna. A única coisa que é possível dizer, sem causar equívocos, de que se trata de um personagem homossexual, é que, no desenrolar de sua narração, ele apresenta um namoro virtual, com outro pilar dessa história, o jovem Isaac. Eles só se conhecem pela internet e, como uma fuga para encontrar a sua liberdade, este Will se decide por conhecer Isaac, pessoalmente. Para este Will, Isaac representa a sua fuga desses sentimentos depressivos e é a pessoa a quem ele escolhe para ser o seu “libertador”. Na trama, este Will é escrito com letras minúsculas, assim: will.
A estética do trabalho que versa sobre a vida e os dilemas de dois personagens jovens gays e de um jovem personagem hétero também se apresenta de forma muito original nos cenários comuns ao mundo jovem: nas baladas, na curtição entre amigos, na necessidade de estar inserido a algum grupo, ou de se isolar do mundo, e no uso das redes sociais, cuja linguagem utilizada também vai transcrever os diálogos feitos no mundo virtual e vai fazer com que a obra ganhe ritmo, fique engraçada, seja irônica algumas vezes e saia desse primeiro contato com a vida dos personagens, para construir a trama propriamente dita.
Sem cair no clichê de contar a trama a partir do encontro entre Will & Will e fazer com que eles vivam uma trama juntos, a história preserva a característica do início: de ser sempre em cada capítulo, um dos Wills a narrar a história. Ou seja, não é mais uma daquelas histórias bonitinhas em que, num determinado momento, cada um se encontra e ambos passam a contar como foi esse encontro e o que cada um pensa em relação ao outro, ou como a vida de ambos foi transformada a partir desse encontro, de ser um hétero falando sobre um gay, ou um gay falando sobre um hétero. Não é uma história clichê, caro leitor. Não, esses Wills não se conhecem e a coincidência de seus nomes também se dá na coincidência de um encontro, após um deles ser barrado na entrada de uma balada, o Will, e de outro sofrer uma grande desilusão amorosa, o will.
Na verdade, a essência da obra é mostrar pelo olhar do Will como é o relacionamento com um amigo gay, no caso, Tiny Cooper. E mostrar pelo olhar do will como é ser gay, dentro de um contexto. E mostrar como é natural a vida dos gays e as escolhas são diferentes, mesmo para gays. Porque enquanto Tiny é encantador, seguro e feliz, também porque nunca sofreu nenhuma desilusão amorosa e pode se assumir gay na sociedade, e faz do amigo Will, alguém que passa a entendê-lo e tem por ele uma amizade verdadeira. O will gay é dramático, sofre muito e tem uma condição muito difícil de lidar e sofre com a falta de aceitação desse mundo com o qual ele precisa lutar, mas quer fugir dele.
            Então, assim como a obra não cai no clichê, ela também não entra na catarse, com cenas previsíveis demais ou com personagens beirando o limite das ações. A obra embora trate e fale sobre a homossexualidade, na figura de dois personagens gays, um will e o melhor amigo de Will, ela não trata a homossexualidade como uma questão puramente individual, ou como uma condição que seja para ser preservada, como uma taça de cristal, que precisa ser guardada, para que as pessoas tenham cuidado ao falar de e sobre os homossexuais ou sobre a homossexualidade. Não, a obra tem os seus personagens homossexuais e diferentes e o seu personagem heterossexual. A obra mostra gays e héteros de uma sociedade, não como oposições dentro dela, mas como complemento a manifestações de uma mesma sexualidade, a humana. E não faz dos personagens, pessoas privilegiadas, por pertencerem a uma ou a outra sexualidade. São pessoas normais como quaisquer outras, e que têm seus dilemas, têm seus percalços, mas que não deixam de ser pessoas normais, porque se mostram num coletivo, sem comprometerem a sua individualidade, sempre mostrada durante a narração dos Wills. A obra combate o preconceito em relação à sexualidade e, neste caso, à homossexualidade, apenas mostrando que não é tão difícil e incompreensível a convivência com gays, pode até ser fabulosa a convivência, como é conviver com Tiny Cooper.
            A obra por ser jovem e apresentar o gênero queer, cumpre com o pensado para ele, de discutir literatura & sexualidade sem dissolver as duas temáticas, com uma abordagem excessivamente emocional ou excessivamente dramática. E, por ser um queer dentro de um romance juvenil, traz em sua composição as temáticas juvenis. O livro Will & Will — Um nome, um destino fala sobre a busca pela identidade, sobre a busca por se colocar jovem e com suas diferenças no mundo de adultos, das dificuldades de crescer e chegar à vida adulta e, principalmente, sobre amizade, e como os ideais de mundo pulsam nesta fase da vida. É uma excelente obra para leitura, sem dúvida.
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Curiosidade
O selo Galera do grupo Record, selo que edita o livro, enviou uma cópia para o deputado e pastor, Marco Feliciano, com a dedicatória: “Prezado deputado Marco Feliciano, é só amor. Talvez com esse livro o senhor consiga entender”. Não sei se ele conseguiu entender, mas espero que ele leia o livro e compreenda o queer chegando à literatura e com força, e possa, como leitor, aceitar este mundo que se revela, também pela literatura e por um texto de cunho juvenil.
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Escritor, profissional de saúde e
apaixonado por leitura e por bons
livros!
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6 thoughts on “O queer na literatura juvenil

  1. Oi!
    Não sabia sobre o queer na literatura, quer dizer, ja ouvi falar sobre o queer e ja li e Will e Will e sei sobre livros que tratam a sexualidade mas não sabia que levava esse nome.
    Adorei o livro, como você disse ele retrata de uma forma real e sem clichês o universo adolescente.
    Achei o texto muito completo e bem escrito, espero que mais pessoas o leiam com atenção e o entendam.
    Abraços
    Guilherme – http://leituraforadeserie.blogspot.com/

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