Universo Paralelo #1: Vamos falar sobre Divergente (livros+filme)

 

Antes de tudo quero começar explicando porque resolvi escrever essa coluna. Li a trilogia Divergente (Divergent, originalmente), da americana Veronica Roth, ao longo de dois meses (alternando com outros livros ao longo desse tempo). Interessada pela história, assisti ao filme na sua estreia no Brasil, em minha cidade. Li críticas, e acompanhei conteúdos relacionados na internet, e me decidi por fazer um post um pouco longo sobre o assunto. Vi comentários muito controversos, alguns válidos e outros muito absurdos, devo dizer. Enfim, nesse post discuto sobre os livros e o filme e falo sobre algumas polêmicas que vi nesse período, e cheguei à conclusão que Divergente  talvez seja uma série mal compreendida, afinal.

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A história

Beatrice (Tris) Prior é uma adolescente de 16 anos que vive numa Chicago pós-apocalítica (sim, estamos falando de uma distopia) que se divide em facções, cujos critérios são relacionados à personalidade e comportamento. Quem não se enquadra nesses padrões vive marginalizado e é parte dos “sem-facção”. Ao fazer um teste (que inclui soros que induzem ilusões controladas) a garota descobre que é uma divergente, ou seja, ela se encaixa em mais de uma facção. Isso é um problema, já que por pensar diferente das outras pessoas e não se enquadrar nos padrões estabelecidos, ela é uma ameaça ao sistema. Beatrice escolhe a facção dos corajosos, a Audácia (Dauntless) e vai lidar com tramas políticos, segredos familiares e questões que envolvem identidade, comportamento, altruísmo, entre outros. A resenha do primeiro livro aqui no blog você encontra neste link.

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Livros

Tenho que admitir: de início, não valorizei o livro que tinha em mãos. Sabendo pelo pouco que vi na internet, acreditei que se tratava de uma cópia barata de Jogos Vorazes (como alguns erroneamente ainda pensam). Sim, eu estava errada. Divergente pode ser descrito como eletrizante, dinâmico, envolvente. Veronica Roth criou não só um mundo distópico pouco convencional, mas fez abordagens inovadoras sobre assuntos que eu acreditava não poderem ser discutidos tão profundamente. Ela consegue mesclar bem ação, romance e crítica. Além disso, a personagem principal favorece a história: cativante por ser humana, por errar e ter medo, mas ser fiel aos seus princípios, proteger aqueles que ama, ser curiosa, ousada e perseverante.

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O segundo livro, Insurgente, é tão controverso quanto a própria saga. Foi decepcionante em alguns pontos (a personagem principal tem tropeços significantes ao longo da história), mas muito bom em outros: esclareceu dúvidas e se aprofundou mais nessa sociedade, nos mostrando como funcionam as facções, apresentando melhor o que são os divergentes, tendo reviravoltas e um final absolutamente surpreendente. Já o terceiro livro, Convergente (na versão original, Allegiant, que traduzido literalmente significa “Lealmente”) traz muitas revelações incríveis, e vemos esse universo ser expandido, mostrando ser muito mais complexo que o imaginado. Com bons ganchos ao longo da história e um final que não pode ser explicado, só lido, de tão chocante (acredite, eu sei do que estou falando), o último livro da trilogia de Roth apresenta críticas e reflexões mais palpáveis, além de desenvolver e explorar muito bem os personagens. Pela quantidade de revelações presentes nesse livro, talvez alguns achem “pontas soltas” no contexto da história. Pessoalmente, não tive esse problema, mas é algo plausível pela intensidade dos acontecimentos.

No balanço final, a trilogia de Roth se apresenta como uma leitura rápida e envolvente, mas que vai além da adrenalina da ação e faz reflexões e críticas muito válidas, além de apresentar personagens interessantes e que evoluem perceptivelmente ao longo da narrativa. Leitura recomendada.

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O filme

Fãs, pessoas interessadas na história, alguns que só queriam assistir algum filme no cinema. Assim pode ser resumido o público da minha sessão. Afinal, se tratava da estreia do primeiro filme de uma saga que pode vir a ser algo maior, quem sabe.

Divergente foi produzido pela Lionsgate (que adquiriu a Summit Entertainment, responsável pelos filmes), com direção de Neil Burguer (“O Ilusionista”, “Sem Limites”) e presença de jovens promessas (Shailene Woodley, Miles Teller, Ansel Elgort) além de nomes já conhecidos (Kate Winslet, Ashley Judd). Outro destaque foi a presença da autora da trilogia nos roteiros e na produção.

Tal como a reação dos presentes na minha sessão, Divergente tem sido um sucesso de público, agradando aos novatos nesse universo e à maioria dos fãs dos livros. Quanto aos últimos, uma posição tem sido quase unanimidade: boa escolha do elenco, filme bem construído, com boas cenas de ação e uma leve decepção com algumas cenas e diálogos não incluídos no roteiro (típico, mas nesse caso, válido). Já entre a crítica cinematográfica, o resultado foi diferente: ressaltaram falta de originalidade, direção ruim e fizeram comparações com Jogos Vorazes (um tanto exageradas) e Crepúsculo (absurdas por sinal).

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Crítica:

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Como alguém que leu os livros, devo dizer que o resultado foi satisfatório. Destaco a atuação do elenco, muito competente. Shailene Woodley, muito carismática, conseguiu construir muito bem sua personagem: persistente, ousada, que cresce na trama e domina a cena. Theo James, como Quatro, também foi muito bem, trazendo a atmosfera misteriosa do personagem, não como um bad boy clichê, mas alguém que esconde segredos, traumas e força interior. A química nas telas entre Shailene e Theo contribuiu muito para seu desenvolvimento no filme: é um casal que funciona sem dramas excessivos. Além disso, Jai Courtney, como o cruel Eric, e Kate Winslet, como Jeanine conseguiram transmitir bem a essência de seus personagens, e Miles Teller, como Peter, apesar de pouco explorado, também fez um bom papel. As cenas de ação, as lutas, e as paisagens do medo foram muito bem desenvolvidas, principalmente o crescimento de Tris ao longo do filme. A apresentação desse mundo distópico foi bem feita, e o enredo pode ser bem compreendido. Destaque também para a fotografia e a trilha sonora, com presença marcante das canções de Ellie Goulding, que condizem com a atmosfera do filme.

Os pontos negativos ficam por conta de alguns cenários e os figurinos, que poderiam ter sido elaborados de forma mais eficiente, problemas estes que com investimentos extras podem ser solucionados (Tomem como exemplo “Em Chamas”, que com maior orçamento, fez figurinos notáveis e ótimos efeitos especiais). Além disso, o corte de algumas partes do livro seja por preferência do diretor, seja por cuidados com a classificação etária, fez falta. O personagem Peter, sociopata inescrupuloso nos livros, teve sua participação atenuada no filme, perdendo a complexidade interessante mostrada no livro. Ao preferir mostrar a ação na película, Neil Burguer deixa de lado as críticas e a trama política e sociológica da Chicago distópica, além de não explorar os complexos personagens de Roth, mutáveis durante o enredo. A história de Tris e Quatro, mais do que um romance adolescente na história original, talvez pareça clichê para os mais críticos. Tais decisões são responsáveis pela perda de boa parte da conexão emocional marcante no livro, pouco explorada nas telas.

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Apesar dos contras, o filme cumpre sua missão e é envolvente, com boas sequências de ação e uma atuação marcante da protagonista, agradando aos fãs e ao público em geral. Com a mudança de diretor e investimentos na produção, espera-se que “Insurgente” consiga ser uma boa adaptação, corrigindo os erros de seu antecessor e valorizando ainda mais os acertos que agradaram ao público.

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Polêmicas

Muitas polêmicas surgiram com o lançamento do filme (muitas levaram a esse post, que irônico). Algumas muito absurdas, e que envolvem não só Divergente, mas os livros YA em geral. Lembrem-se não estou me posicionando contra ou a favor da série, apenas citando fatos e as incoerências que comprometem um julgamento adequado a seu respeito.

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Divergente X Jogos Vorazes

Distopia para jovens adultos, protagonista feminina forte. É aí que a semelhança entre essas séries acaba. Com abordagens bastante diferentes, é muito difícil comparar as sagas: Jogos Vorazes tem mais política e guerra; Divergente já desenvolve mais conceitos de comportamento e organização social. Divergente tem influência de Jogos Vorazes? Sim, claro. E é visível em alguns trechos. A comparação deve ser feita portanto? Não. Honestamente, tenho mais afinidade por Jogos Vorazes, mas nada impede que eu possa apreciar outra história de um mesmo nicho de mercado, e isso não vale apenas para distopias.

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Distopias YA = clichês?

Estamos em um boom de distopias escritas para jovens adultos (em inglês Young Adults: YA). Na literatura, o gênero está em larga expansão. Na indústria cinematográfica, é um fenômeno ainda recente. Além disso, prefiro acreditar em uma evolução nesse ramo: há alguns anos atrás, histórias de romances envolvendo vampiros, lobisomens, anjos, ou seja lá qual for o ser sobrenatural (e eram muitos) dominavam o mercado, e o foco da história era a garota apaixonada pelo rapaz misterioso. As distopias, populares ou não, são retratos da nossa sociedade e suas mazelas, ou do que um dia ela pode tornar a ser. A popularização da literatura distópica é um passo importante para a conscientização dos jovens e para a reafirmação da literatura como instrumento de politização de novos leitores. Embora não seja unânime, por trás da diversão existe a reflexão sobre a sociedade que estamos construindo. E já que, podemos dizer sinceramente, os problemas de nossa época não são poucos, é possível trabalhar abordagens diversas para velhos e novos dilemas. Por isso, alegar falta de originalidade é, a meu ver, ser negligente com o valor social trazido pelas distopias em geral.

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Divergente X Crepúsculo

É exatamente isso que você acabou de ler. Li críticas e textos que comentavam sobre as semelhanças entre Divergente e Crepúsculo (?) e alguns questionando se a saga atingiria o mesmo sucesso desta. Lembrem-se que esta é apenas minha opinião, e as comparações com Crepúsculo não são feitas apenas com Divergente, mas YA’s em geral (Jogos Vorazes, Harry Potter, enfim), e portanto se direcionam a estes também. Além do fato de as histórias serem completamente diferentes, seja no gênero ou nas questões que direcionam o enredo, Crepúsculo não é parâmetro para avaliar um filme, seja ele YA ou não. Apesar de ter uma arrecadação de bilhões de dólares, Crepúsculo tem atuações, direção e roteiro que nem valem meu comentário. Enquanto muitos afirmam a saga vampiresca como um sucesso apenas pela “popularidade”, ela é piada até hoje nas mídias sociais. Muitos dos que assistiam o faziam por diversão, apenas por pensar “como será que isso vai terminar?”. Os romances sobrenaturais que eram alvos de crítica por sua falta de conteúdo e objetivo e a postura de submissão das personagens femininas, hoje servem como exemplos a serem seguidos? Espero que não.

Para piorar, li até afirmações de que um dos medos de Tris na história era ser estuprada por seu instrutor e posteriormente namorado, Quatro (verdade, alguém teve coragem de publicar isso) e alegações de que as facções eram como “panelinhas” do colegial. Nada mais do que evidências de que as distopias precisam ser mais bem entendidas e valorizadas em seus aspectos positivos, inclusive Divergente.

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assinatura karen caires

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4 thoughts on “Universo Paralelo #1: Vamos falar sobre Divergente (livros+filme)

  1. Gostei muito do seu post esclarecendo do que se trata Divergente.
    Acredito que muita gente não dá chance a ele por causa de muitas resenhas destrutivas onde pessoas fazem comparações absurdas, como se o mundo literário não fosse nada além de Jogos Vorazes, HP e Twilight (olha que sou uma Twilighter e essas comparações me irritam)
    Quando li a trilogia Divergente percebi que o livro não se tratava de um “conto de fadas” e é isso que muita gnt espera dos livros, pelo menos minhas amigas esperam. kkk
    No final, gostei muito dos livros.. amei as reviravoltas e como termina de forma chocante. (Uns amam, e muitos odeiam )
    bjuxx

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    • Obrigada, era exatamente o que eu queria dizer: há espaço para outras sagas, desde que boas, quaisquer seja o gênero. Tenho um caso de amor e ódio com o final do último livro, por razões óbvias kkk Mas no balanço final também gostei da história e do rumo que ela tomou.

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