[De olho na escrita #2] Verbos: ao flexionar um verbo, todo cuidado é pouco

Ao avaliar textos de estudantes dos Ensinos Fundamental e Médio, percebo que uma das grandes dificuldades é o uso adequado dos verbos principalmente no que se refere às correlações dos modos verbais, considerando aqui a norma culta da língua portuguesa. Pensando nisso, o De olho na escrita de hoje traz um texto (que será publicado em duas partes) de autoria de Chico Viana, publicado na revista Língua Portuguesa número 73, de novembro de 2011, da editora Segmento, que esclarece bastante essa dificuldade apresentada pelos estudantes.

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Verbos sinuosos  

        Conjugar um verbo é flexioná-lo em modo, tempo, número pessoa e voz.  Em princípio bastaria conhecer os sufixos que indicam o modo e o tempo, e as desinências que determinam o número e a pessoa, para realizar com êxito essa tarefa. No entanto uma série de fatores ligados à estrutura e ao funcionamento de nossos verbos dificulta a conjugação.

         O primeiro deles são as mudanças no radical, ou seja, na parte da palavra em que se concentra o seu sentido. O falante tende a seguir os modelos estabelecidos nas três conjugações, mas frequentemente se depara com irregularidades ou anomalias que fogem ao chamado paradigma. O choque começa cedo; a criança diz que o irmãozinho não “cabeu” na cama. Ao ser repreendida pela mãe, não compreende por que diz “bebeu”, “comeu”, “perdeu”, mas deve dizer “coube”.

        O segundo fator que dificulta a conjugação verbal em português são as lacunas ou os excessos que se observam na flexão de certos verbos. Há os que por variados motivos não apresentam todas as formas. E os que apresentam formas duplas (ou mesmo triplas) em tempos como o particípio. É preciso então conhecer as particularidades que cercam os verbos defectivos e abundantes.

       O terceiro fator relaciona-se com o emprego dos modos e tempos. Ao contrário dos dois anteriores, que são de natureza morfológica e semântica, esse diz respeito ao discurso. O emprego inadequado dos modos ou a falta de correlação entre eles geram incoerências e quebras de paralelismo que comprometem a arquitetura do texto.

       O modo indica a disposição do falante quanto à ação verbal. Há três modos em português: o indicativo, o subjuntivo e o imperativo. Por meio do indicativo designam-se ações reais e independentes: canto, cantava, cantei, cantaria. O subjuntivo indica ações prováveis ou dependentes de outras. É o modo em que aparece a maioria dos verbos das orações subordinadas (é preciso que eu cante, se eu cantasse, quando eu cantar).

          Falhas no emprego do modo comprometem a lógica do texto. Numa frase como “Espero que você chega hoje”, a flexão no indicativo apresenta a ação de chegar como um fato, quando ela é uma hipótese. O mesmo ocorre nesta outra, retirada de uma matéria jornalística: “Comerciantes permitem que menores de idade adquirem a droga.” Fala-se da possibilidade de adquirir a droga, o que se traduziria com o emprego do subjuntivo (adquiram) e não do indicativo.

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Bons modos

        Os modos devem não apenas ser usados com rigor, como também estar adequadamente correlacionados. A quebra da correlação compromete a simetria estrutural da frase. É o que ocorre, por exemplo, quando alguém diz que “viajará se tivesse dinheiro”. O verbo “ter” no imperfeito do subjuntivo não se harmoniza com a firmeza de propósito do emissor, indicada pelo futuro do indicativo. Em casos como esse o valor do conectivo varia; dependendo dos tempos correlacionados, o “se” pode indicar tempo (viajarei se tiver) ou destacar a ideia de condição (viajaria se tivesse).

        As correlações mais comuns são:

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a) presente do indicativo e presente do subjuntivo: “Deseja que o filho vença”.

b) futuro do subjuntivo e futuro do presente “Se ele insistirvencerá”.

c) imperfeito do subjuntivo e futuro do pretérito: “Se ele insistissevenceria.”

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        Além dessas há correlações com os tempos compostos, que permitem relacionar diferentes momentos da ação verbal. É possível com o auxílio das locuções:

– indicar um fato anterior a outro no passado: “O garçom percebeu que o cliente tinha derramado a cerveja.”

– entre duas ocorrências no futuro, assinalar a que é anterior: “Quando ela voltar, terei vendido o apartamento.”

– entre duas ações hipotéticas, indicar a que é posterior: “Se nos alertassem, teríamos comprado o apartamento.”

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        Quebras na correlação são possíveis quando se quer obter ênfase. É o que ocorre  numa frase como: “Se você se incomodar com o barulho, eu paro”. O presente em lugar do futuro (pararei) ressalta a disposição do falante em praticar a ação. Há situações em que a falta de simetria torna ambíguo o enunciado, como se vê nesta passagem retirada da redação de um dos nossos alunos: “É difícil encontrar algumjovem que não estivesse empenhado em mudar o quadro político nacional.” O uso do verbo ser no presente mostra como atual uma dificuldade que existia no tempo dos governos militares. A troca de “é” por “era” desfaria a incoerência temporal.

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O que não pode no imperativo

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       O imperativo é o modo que traduz ordem, apelo, súplica. Forma-se em português a partir dos presentes do indicativo (nas pessoas “tu” e “vós”, cortando-se o “s” final) e do subjuntivo (nas pessoas restantes). O imperativo negativo é aproveitado integralmente do presente do subjuntivo. Com base nisso, segue o imperativo do verbo “cantar”:

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                     Afirmativo                       Negativo
                           —-                               —-
                     Canta tu                       Não cantes tu
                     Cante você                       Não cante você
                     Cantemos nós                       Não cantemos nós
                     Cantai vós                       Não canteis vós
                     Cantem vocês                       Não cantem vocês

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Os problemas no emprego do imperativo decorrem basicamente do desconhecimento do seu processo de formação. No âmbito da norma culta, exige-se a flexão correta. No registro coloquial é comum a mistura de pessoas gramaticais (“Respeita seu pai!”, em vez de “Respeite seu pai!”) e o uso de formas do afirmativo em sentenças negativas (“Não canta muito alto, que vais assustar os vizinhos.”). Também no domínio literário são comuns os desvios, como se vê nesta passagem do “Fado tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra: “Mas não sê tão ingrata/ Não esquece quem te amou…”. O uso de “sejas” e “esqueças” sacrificaria a métrica e a fluidez dos versos.

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Gostaram das dicas? Até o próximo De olho na escrita!

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seção de olho na escrita

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