[Resenha] Cartas do Papai Noel – a verdadeira magia do Natal

Hoje em dia é fácil perder-se em meio às convenções sociais, muitas delas com significados distantes dos originais. Um dos exemplos é a data que se aproxima, o Natal, época em que famílias e amigos do mundo inteiro se reúnem para celebrar e trocar presentes e carinho. Há quem discuta a validade da data, tradicionalmente cultuada em todo o planeta, como uma fachada para o consumismo e a ambição capitalista das lojas. Capitalista ou não, a tradição de trocar presentes é um costume em minha casa e, em uma das buscas de lembranças para meus entes queridos, fui presenteada com um achado inesperado.

Circulando pelas prateleiras de uma livraria, encontrei, na sessão infantil, a obra publicada pela editora Martins Fontes Cartas do Papai Noel, do magnífico J.R.R. Tolkien. Não creio serem necessárias aqui grandes explicações. Tolkien, o mestre da literatura que nos presenteou com obras como O Hobbit O Senhor dos Anéis, revela, em Cartas do Papai Noeluma faceta que pessoalmente considero encantadora: a de pai. Quando seu filho mais velho John, então um menino de 3 anos, começa a questionar sobre o Natal e um de seus maiores símbolos, o Papai Noel, Tolkien decide que, além da tradição dos presentes nas meias natalinas, cada Natal será também marcado pela chegada de cartas do Papai Noel.

cartas papai noel capa

Cartas do Papai Noel, de J. R. R. Tolkien. (2012)

Naturalmente é de se esperar que uma obra de Tolkien seja recheada de magia, fantasia e encantamento. O compromisso do renomado escritor foi tamanho que, por 20 anos, seus 4 filhos receberam não apenas cartas, mas desenhos que ilustravam detalhes das aventuras que o bom velhinho enfrentava a cada ano, bem como detalhes de sua casa, do processo de empacotamento e entrega dos presentes, entre tantos outros detalhes fascinantes. As cartas, de fato, envolviam um processo muito cuidadoso: apresentavam selos oriundos do Pólo Norte, chegavam via carteiro, salpicadas de neve, cuidadosamente escritas com letra tremida, fato que o Papai Noel justifica da seguinte maneira:

Hoje o dia está muito frio e minha mão está muito trêmula – faço mil novecentos e vinte quatro, não! sete! anos no Dia do Natal -, muito mais velho que seu bisavô, então não consigo fazer a caneta parar de sacudir,… (p.11)

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O envelope.

Com um tom bastante íntimo, em cartas longas ou apenas breves mensagens, Papai Noel agradece constantemente aos filhos de Tolkien – John, Michael, Christopher e Priscilla, pelas cartas enviadas, além de justificar alguns presentes (ou a falta deles). As aventuras de cada Natal são narradas com a participação do fiel ajudante do Papai Noel, o Urso-Polar do Norte, figura curiosa, prestativa e atrapalhada, criador de um alfabeto próprio e encarregado de ajudar na separação e embrulho dos presentes, além de outras tarefas. Porém, o Urso-Polar geralmente é o causador de grandes confusões que, por vezes, quase põe em risco a celebração natalina:

Tudo aconteceu assim: num dia de muito vento, em novembro passado, meu gorro saiu voando e se enganchou no topo do mastro do Polo Norte. Eu disse para o Urso-Polar não fazer aquilo, mas ele escalou até a ponta fininha do mastro para pegar o gorro – e pegou. O mastro se quebrou ao meio e caiu no telhado da minha casa, e o Urso-Polar do Norte caiu pelo buraco que ele fez na sala de jantar, com meu gorro em cima do focinho; a neve toda caiu do telhado para dentro da casa, derreteu e apagou a lareira, escorreu para os porões, onde eu estava guardando os presentes deste ano; e o Urso-Polar do Norte quebrou a perna. (p.21)

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Mas o Urso-Polar do Norte não deixa de fora a sua versão dos fatos. Nas cartas originais encontramos diversas explicações do carismático Urso entre o texto do Papai Noel, todas escritas em letra grossa – “Desculpem letra grossa, minha pata é gorda” (p.23). Ao que tudo indica, Papai Noel e Urso-Polar  vivem trocando farpas

Acho que o Urso-Polar estragou bastante do desenho – é claro que ele não consegue desenhar com aquelas patas grandes e gordas – Grosso! Consigo, sim – e escrevo sem tremer. (p. 28).

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Carta do Urso-Polar.

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O Urso-Polar.

Porém, fica clara, em diversas passagens, o quanto se divertem juntos, especialmente nas batalhas contra os trasgos (criaturinhas que vivem escondidas nas cavernas e cavam túneis até os porões do Papai Noel para roubar presentes):

O Urso-Polar espremia, esmagava, pisoteava, socava e chutava trasgos para o alto, urrava como um zoológico, e os trasgos berravam como apitos de locomotiva. Ele foi esplêndido. (p. 90).

Além do Papai Noel, do Urso-Polar e dos trasgos, Tolkien recheia o mundo do Polo Norte com diversas personagens mágicas como o secretário Elfo Ilbereth, os sobrinhos do Urso-Polar, Gnomos Vermelhos, o Urso das Cavernas, o Homem e os Bebês das Neves, entre tantos outros.

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Ao criar um mundo mágico como este, recheado de personagens encantadoras, fica claro o objetivo do pai Tolkien: tornar o Natal um momento mágico e significativo para seus filhos. As cartas, que começaram em 1920, se mantiveram presentes durante toda a infância dos Tolkien, ajudaram a explicar tradições e ilustraram a figura do Papai Noel, do Polo Norte e de todo encantamento natalino.

É importante destacar o quão cuidadoso foi o autor. Através da voz do Papai Noel, seus filhos são encorajados a partilhar seus presentes (“Espero que compartilhem sempre as peças da estrada de ferro, da fazenda e os animais, e não pensem que cada coisa é só para o dono da meia em que foi colocada.” – p. 40),  a pensar nas famílias em necessidade (“… se acharam que não chegaram muitas das coisas que pediram, e talvez nem na mesma quantidade em que chegavam outras vezes, lembrem-se de que neste Natal há em todo o mundo um número imenso de pessoas pobres e famintas.” p. 62), além de deixar implícitas as dificuldades resultantes da 2ª Guerra Mundial (“Essa guerra horrível está reduzindo todos os nossos estoques, e há muitos países em que as crianças estão morando longe das suas casas.”  p.140).

O comprometimento do lendário escritor em envolver seus quatro filhos na magia natalina certamente tornou a data um momento muito significativo e esperado. De fato, a ansiedade das crianças era tamanha que elas já estavam escrevendo as cartas meses antes do Natal:

Já recebi algumas cartas de vocês! Vocês estão se inquietando cedo demais. Ainda não comecei a pensar no Natal. (p. 59).

O Papai Noel, inclusive, considera o efeito do crescimento de cada criança. Com o passar dos anos, o filho mais velho de Tolkien, John, para de escrever cartas, o que é mencionado em carta aos irmãos:

Não ouvi nada do John este ano. Decerto ele já está muito grande e logo nem vai mais pendurar a meia. (p. 30).

Apesar de terem crescido e eventualmente parado de escrever as cartinhas, pode-se perceber o quanto o esforço de Tolkien em reforçar o espírito e a tradição natalina impactou a vida dos filhos. De fato, em um mundo em que os valores sociais e as tradições muitas vezes se perdem em meio aos valores econômicos, é sempre bom saber que existiram no mundo pessoas que presentearam seus entes queridos com muito mais do que bens materias: com o poder de realmente acreditar em algo.

Cartas do Papai Noel é, sem dúvida nenhuma, uma obra perfeita para ser apreciada, especialmente nesta época do ano. E talvez não seja demais dizer que é um livro que, acidentalmente, reforça a fé na humanidade.

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Título: Cartas do Papai Noel
Autor: J.R.R. Tolkien
Número de páginas: 168
Ano de edição: 2012
Editora: WMF Martins Fontes
Tradutor: Ronald Eduard Kyrmse

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