[Resenha] Bartleby, o escriturário – Herman Melville

1-a-aba-bartleby-de-bolso-por-10-reais1

Bartleby, o escriturário – de Herman Melville. Edição de 2008, pela L&PM Pocket.

Prefiro não fazer. (p.30)

Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street é uma novela de Herman Melville (1819 – 1891), publicada anonimamente em 1853. Conforme a contracapa da edição da L&PM, “trata-se de uma história surpreendente pela simplicidade e aterradora pelo realismo”. Definitivamente, a narrativa é simples. A história é contada através de um narrador-personagem: um advogado que trabalhava numa sala de um prédio localizado na Wall Street. Esse narrador, de forma exemplar, evidencia a necessidade do homem ocidental de procurar a sua origem, no caso, em expressar a verdade absoluta da história narrada. Seu objetivo, então, é determinar a origem do escriturário Bartleby e descobrir seus segredos.

Mas troco as biografias de todos os outros escriturários por algumas passagens da vida de Bartleby, o escriturário mais estranho que jamais vi ou de que ouvi falar. De outros taquígrafos talvez eu consiga contar a vida toda, mas não se pode fazer nada parecido em relação a Bartleby. Não creio que haja material suficiente para uma biografia completa e satisfatória deste homem. Trata-se de uma perda irreparável para a literatura. Bartleby foi um daqueles seres sobre os quais nada é passível de confirmação, a não ser junto às fontes originais, e, no caso dele, essas são muito poucas. O que vi de Bartleby com meus próprios olhos estarrecidos é tudo o que sei dele, com exceção, na verdade, de um relato vago que é reproduzido ao final. (p. 13 – 14)

.

O narrador se descreve no início da história como um homem sossegado e que não gosta de atribulações tanto profissionais como pessoais. A descrição de seus funcionários Turkey, Nippers e Ginger Nut também serve para comprovar o fato de que esse narrador é adepto à tranquilidade e, poderia dizer também, à passividade. Constantemente o advogado aborrecia-se com os rompantes de humor de seus funcionários. Turkey e Nippers revezavam-se: um possuía ataques de irritabilidade no período da manhã enquanto o outro, de nervosismo no período da tarde. Apesar dessa situação o narrador optava por mantê-los trabalhando no escritório pois considerava o serviço deles útil e indispensável.

Conforme o aumento de atividade no escritório, houve a necessidade de um novo escriturário. Contrata, então, Bartleby

Depois de algumas palavras a respeito de suas qualificações contratei-o, satisfeito por ter em minha equipe de copistas um homem de aspecto tão singularmente sossegado, que eu acreditei poder ser benéfico ao temperamento excêntrico de Turkey e ao gênio explosivo de Nippers. (p. 27)

Instalou Bartleby próximo à sua mesa pois achava interessante que alguém tão sereno trabalhasse no mesmo ambiente que ele e, além disso, poderia pedir auxílio a alguns serviços que fossem de maior urgência. Tudo parecia ocorrer bem para esse advogado e para o andamento das atividades de seu escritório. Até que um dia, Bartleby nega-se a fazer qualquer atividade que seja diferente daquilo que sempre fez: copiar. Ele não revisa, não pega qualquer objeto que esteja a seu alcance para entregar a outrem, ele não vai ao correio, ele não conversa. A insubordinação de Bartleby é algo que ultrapassa a compreensão humana. Bartleby continua trabalhando de forma produtiva, mas não faz coisa alguma além de seu trabalho, não possuindo uma razão para isso. Apenas diz: “Prefiro não fazer”. E quando é questionado por qual razão ele se limita a responder: “Prefiro não fazer”.

A falta de motivo incita a curiosidade do narrador. Diversas são as formas que o advogado tenta se aproximar desse funcionário: questionando, solicitando atividades, observando-o. Nenhuma dessas, entretanto, conseguiu identificar os motivos dessas excentricidades de Bartleby. Segue-se uma espécie de ânsia pela descoberta de detalhes da vida desse homem: observava Bartleby frequentemente, a fim de desvendar algum segredo.

A partir daí, esse advogado da Wall Street, que no início dizia se propor a narrar uma história sobre um escriturário, está mais inclinado a contar sobre o que não sabe.

– Você pode dizer-me, Bartleby, onde nasceu’?
– Prefiro não dizer.
– Você me contaria alguma coisa sobre a sua vida?
– Prefiro não contar. (p. 52)

Exatamente por ele deixar de falar que o narrador possui essa experiência angustiante de não encontrar um sentido. No texto, a linguagem bloqueia a comunicação, não dá respostas, ou seja, ela apenas gera cada vez mais perguntas no narrador. E nos leitores, obviamente. Essas perguntas que guiam o advogado, que o fazem querer saber mais e mais sobre a vida de Bartleby, são, justamente, as que nos fazem não querer parar de ler.

Podemos dizer que este advogado representa uma tradição de narrar, lembra muito a necessidade do narrador realista, que busca a objetividade, que descreve. E pelo fato de ele não conseguir realizar esta tarefa à qual ele se propôs, mais ansioso por descobrir detalhes da vida de Bartleby ele fica. No entanto, ele não consegue falar sobre o que não sabe pois, para ele, isso não é possível devido à falta de comunicação com Bartleby.

O exercício de narrar é o grande tema dessa obra que nos deixa curiosa desde a primeira página. O narrador não conseguirá compreender o personagem Bartleby. E nós, será que conseguiremos compreender?

.

Título: Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street
Autor: Herman Melville
Número de páginas: 96
Ano de edição: 2008
Editora: L&PM
Tradutor: Cássia Zanon

Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s