[Resenha] A luz no subsolo – Lúcio Cardoso

A primeira vez que escutei o nome “Lúcio Cardoso” na minha vida foi em 2001. Estava assistindo a uma palestra do escritor Ivo Bender e este comentou que o também escritor Caio Fernando Abreu aparecera em sua casa com um livro chamado Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, um escritor não muito conhecido no meio literário. Lembro-me perfeitamente de ter anotado o nome do livro e o nome do autor pois os comentários do palestrante me deixaram bastante curiosa.

lucio_cardoso

Lúcio Cardoso (1912 – 1968)

Alguns meses se passaram e minha mãe, estudante de Letras na época, pediu que eu digitasse um trabalho para ela. Peguei seus rascunhos feitos a mão e deparei-me com o título Crônica da casa assassinada novamente. Conforme digitava, percebi que eu PRECISAVA ler este livro, podia ser um sinal divino, sei lá! No entanto, era uma época de muitas leituras na faculdade e acabei deixando esta na minha lista de desejos para que, quando tivesse tempo, pudesse desfrutar o prazer de o ler. Isso aconteceu alguns anos depois, quando eu estava cursando a faculdade de Letras e realmente tive a certeza de que o Lúcio “veio pra ficar” já que durante o meu mestrado fiz um estudo sobre o início de sua carreira literária (sobre a Crônica da casa assassinada farei, em breve, uma resenha).

A luz no subsolo, publicado pela editora José Olympio em 1936, é o  terceiro romance de Lúcio Cardoso. Atualmente,  é publicado pela editora Civilização Brasileira.

a-luz-no-subsolo

A luz no subsolo (1936), de Lúcio Cardoso.
Capa da edição de 2003, pela editora Civilização Brasileira.

O livro inicia in media res por um “Prólogo” onde Maria, prima que trabalha para Madalena, decide deixar a casa, pois a convivência com Pedro, marido de sua prima, tornou-se insuportável. Maria tem medo de Pedro:

— Não sei, não sei de nada! E não posso trabalhar, sinto que “ele” está constantemente me vigiando… É um olhar que atravessa as próprias paredes!
Madalena ergueu as mãos, num gesto de desespero – e a sua voz tornou um grande esforço:
— Mas como? Quase não sai do quarto!
Maria se debruçara de novo e chorava amargamente; os seus soluços rompiam penosamente a atmosfera clara:
— Por isto mesmo… a sua sombra, não compreende?
E de súbito, com toda a força, num grande grito de angústia:
— Mas não posso mais, não é possível, Madalena!

O clima de angústia já está instalado. Maria sente-se perseguida pelo marido da prima e não consegue mais “respirar”. Suas palavras, impregnadas de desespero, convencem Madalena a deixá-la ir. Esta se sente abandonada e busca apoio na casa da mãe, Camila, em Curvelo, no entanto não consegue dialogar da forma que gostaria, já que o relacionamento com sua mãe é distante. Madalena sente-se como se não fizesse parte da família e percebe isso ao procurar conforto com Camila.

Madalena percebe, nesse momento, o quanto se sente só. Aliás, essa é uma característica de todas as personagens da obra: TODOS se sentem sós e nenhum deles usa esse sentimento para ajudar ao outro.

Na cidade, corre o boato de que Pedro perde o cargo de professor devido a sua influência nefasta sobre alguns alunos. Pedro, todavia, não falara uma palavra sobre esse assunto com Madalena. Esta, fala em tom de desabafo com sua mãe, que ouve e ao mesmo tempo observa e reflete sobre os defeitos de sua filha. Nesse sentido, já podemos observar essa dificuldade dos personagens em se relacionarem, delineando o espaço opressivo que se desenvolve ao longo de toda a narrativa.

Além do ocorrido com Pedro, Madalena comenta com sua mãe sobre Maria, que lhe indica Emanuela, filha mais velha de uma pobre família e que pode tanto substituir Maria nos afazeres domésticos, como fazer companhia. Madalena retorna para sua casa, onde espera durante toda a noite por Pedro, que só volta ao amanhecer, bêbado. É com a partida de Maria que se desencadeia o total aniquilamento das relações entre os protagonistas.

Deste ponto em diante, a história fica difícil de ser reproduzida em virtude da estrutura narrativa fragmentada adotada por Lúcio Cardoso e também pelos diversos momentos em que são expostos os pensamentos e as reflexões das personagens. Através da memória de Madalena, conseguimos descobrir que ela se casa apaixonada pelo marido, embora se misturasse a esse amor um sentimento intenso de miséria humana. Pedro, ao contrário, procurava em Madalena a lembrança de uma antiga amiga de ambos, Isabel, que ele tentara afogar na infância e morrera de pneumonia em consequência de seu ato. O resgate pretendido por Pedro não se concretiza e a relação entre o casal começa a se extinguir. Surgem, então, outras personagens que serão aliciadas por Pedro: Emanuela, a nova empregada, Adélia, sua mãe e Bernardo, cunhado de Madalena. Estes dois últimos, Pedro os convence a assassinarem a mulher, que descobre e guarda consigo a droga com a qual a sogra tentava envenenar-lhe.

A história não para por aqui. Expor o resto da trama seria empobrecer o romance. Somente através da experiência da leitura que podemos compreender a linguagem passional de Lúcio Cardoso, que nos faz sofrer e viver com os personagens.

— Não! – repetiu Pedro surdamente – Que me importa a liberdade, os limites, o homem? Não sou mais que uma criatura destinada a morrer.
— Mas não se pode morrer antes de saber “tudo”. O mundo está cheio de incoerências, de sinais misteriosos. Que significa isto? E aquilo?
(…)
— Deixa-me! Você bem sabe que eu não acredito…
— Em quem? – silvou o mendigo.
Nele.
Desta vez o mendigo aproximou-se com os olhos cintilando:
Então, por que não ousar tudo?

Transitando entre a consciência e a loucura, a solidão e o desespero, a verdade humana e a angústia religiosa, Lúcio Cardoso cria um mundo visionário voltado para os problemas existenciais, revelando o drama interior dos personagens.

A própria leitura da obra causa essa intranqüilidade ao leitor, sentimento esse escolhido por Lúcio para definir a verdadeira arte:

Não sei se é novo o que digo, que me importa, mas não só a filosofia, como toda a arte que se conta como tal, não deve permitir ao homem nenhum sentimento de tranquilidade. Tudo o que é belo, só deve ser útil para fazer crescer nossa impressão de intranquilidade.
(…)
E é assim, sob o terror, que o homem se realiza integralmente. Estamos nus, integrais em toda a estranheza de nosso trágico destino, quando sentimos o chão faltar sob nossos pés.

Lúcio Cardoso

Título: A luz no subsolo
Autor: Lúcio Cardoso
Editora: Civilização Brasileira
Número de Páginas: 367
Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s