Jogos Vorazes: a crueldade televisionada

No final do ano 2000, o diretor japonês Kinji Fukasaku traz ao cinema um filme chamado Batoru Rowaiaru. Lançado no Brasil com o título de Batalha Real e muito cultuado dentre o público nerd, ele é a adaptação do romance homônimo do também japonês Koushun Takami e conta a história de um futuro distópico onde, nas escolas japonesas, os jovens começam a se rebelar contra seus professores e todas as figuras de autoridade de forma tão agressiva que o governo se obriga a criar um programa do exército chamado BR-Act (algo como “o ato da batalha real”). Este ato é um jogo que consiste em pegar uma amostragem dos jovens e colocá-los em uma ilha para que lutem até a morte uns contra os outros até que só sobre um único vitorioso.

8 anos depois, a escritora americana Suzanne Collins parece ter bebido na mesma fonte de Takami e Fukasaku para estabelecer o cenário daquela que seria uma das melhores trilogias do gênero de literatura juvenil da atualidade e que serve de pano de fundo para uma crítica ácida ao nosso mundo de hoje. Crítica essa que se amplifica com a sua adaptação à telona e o alcance que ela tem.

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The Hunger Games (Jogos Vorazes), 2012

O filme, dirigido e roteirizado por Gary Ross (responsável por um dos meus filmes favoritos: PleasantvilleA Vida em Preto e Branco), co-roteirizado pela própria Collins e estrelado por Jennifer Lawrence, traz uma ótica diferente, se comparado ao romance. Ambos, entretanto, contam a mesma história: em um futuro próximo no qual a América do Norte virou um país chamado Panem, dividido em 12 distritos – cada um responsável pela produção de algum recurso básico de sobrevivência, como carvão, hortifrutigranjeiros, tecido, etc – e a Capital, que suga todos os recursos produzidos por estes para sustentar o luxo e a exuberância de seus habitantes, fazendo com que o resto do país viva na miséria. Panem vive as consequências de uma guerra travada entre os outrora 13 distritos e a Capital, na qual o décimo-terceiro fora obliterado e, para que os 12 restantes nunca esquecessem de quem está no poder, foram criados os Jogos Vorazes: dois jovens de 12 a 18 anos de cada distrito (sempre um menino e uma menina) são sorteados como tributo para compor o “elenco” de um reality show perverso que acontece anualmente em uma arena, para que desta só saia vivo um vencedor, que ganha fama e status de celebridade no país inteiro.

Katniss Everdeen (Lawrence), uma adolescente de 16 anos do 12º distrito, moldada e endurecida por esta realidade e pela perda do pai, tem sua liberdade e habilidades colocadas em cheque quando resolve se oferecer para participar da 74º edição dos Jogos Vorazes no lugar de sua irmã, Primrose, de 12 anos, sorteada em sua primeira participação na escolha de tributos. Katniss se valerá então dos dotes adquiridos no convívio com o pai, como a caça, o arco-e-flechas, a capacidade de sobrevivência na natureza, e da relação com Peeta Melark, o tributo masculino de seu distrito, para sobreviver ao massacre televisionado para entretenimento da Capital, que mostra que os recursos alimentícios e de matéria-prima não são as únicas coisas que os distritos perdem nesta forma de governo doentia.

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Katniss Everdeen, personagem de Jennifer Lawrence

A narrativa do filme de Ross é muito mais centrada no recurso do reality show do que o romance de Collins. Enquanto no livro, narrado pela perspectiva de Katniss, recebemos apenas as impressões da protagonista e suas conjecturas quanto aos eventos dos Jogos, tais quais a origem dos obstáculos ou até mesmo dos “presentes” que aparecem de fora da arena e lhe ajudam a superar as adversidades, na versão cinematográfica estas lacunas são preenchidas pela imaginação de Ross. Vemos tudo que acontece na arena ser gerado por uma espécie de produção de programa de tv. Vemos também a repercussão dos Jogos no público que o assiste, exatamente como acontece com os reality shows da vida real. No mundo de hoje, as pessoas viram fãs de gente com corpos perfeitos que não fazem absolutamente nada para merecer a fama que têm, a não ser ficar trancados dentro de uma casa bebendo, comendo e fazendo festa. O público torce pela próxima – e megairrelevante – supermodelo da América, ou para que geeks sejam ridicularizados e tenham suas inaptidões de convívio social esfregadas em suas caras enquanto tentam ficar com garotas bonitas e fúteis que nunca teriam olhos para eles no mundo real (pelo simples fato de que não conseguem enxergar além de um corpo malhado). O povo deixa que a inversão de valores dos reality shows invada suas casas diariamente e em Panem, muito como no planeta Terra de verdade, no qual vivemos agora, a parcela rica da população – que não participa dos jogos, apenas os assiste – torce para que seus tributos preferidos trucidem os outros. Pois enquanto os distritos rezam pela sobrevivência dos seus participantes e choram suas mortes, para a Capital é apenas um programa de televisão. Entretenimento barato.

Este é o ponto em que a obra de Collins se distancia da de Takami. Enquanto em Batoru Rowaiaru os jogadores apenas seguem as regras, Katniss precisa decidir entre só jogar o jogo e sobreviver ou virar a mesa, assumindo o papel de símbolo de esperança e resistência para que esta tradição anual acabe. Afinal, se ninguém mais assistir, não haverá mais jogo. Mas isto, meus amigos, é uma outra história.

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