[Resenha] A Guerra no Bom Fim – Moacyr Scliar

Consideremos o Bom Fim um país – um pequeno país, não um bairro de Porto Alegre. Limita-se ao norte, com as colinas dos Moinhos de Ventos; a oeste, com o centro da cidade; a leste, com a Colônia Africana e mais adiante Petrópolis e as Três Figueiras; ao sul, com a Várzea, da qual é separado pela Avenida Oswaldo Aranha. Em 1943 a região da Várzea, já saneada, estava transformada num parque – a Redenção.

A Guerra no Bom Fim (2008)

Moacyr Scliar é um dos grandes escritores das letras brasileiras contemporâneas, possuindo várias obras premiadas. Sua obra é vasta, contabiliza em torno de oitenta livros publicados que se distribuem entre o conto, o romance, a crônica, o ensaio e a literatura juvenil. Scliar transita entre os mais diversos temas, no entanto, percebe-se uma tendência em destacar o judeu como personagem principal e focalizar a cidade de Porto Alegre. Atualmente, Moacyr Scliar pode ser considerado um autor consagrado e representante ilustre de uma ficção que o levou a ser imortalizado na Academia Brasileira de Letras.

O meu primeiro contato com a obra de Scliar foi na 6ª série, quando li O tio que flutuava. A partir dessa leitura, fiquei fã dele de tal maneira que tudo o que me cai nas mãos e é de sua autoria eu leio. Scliar possui uma linguagem acessível mas ao mesmo tempo de uma riqueza e beleza fascinantes. A Guerra no Bom Fim eu li somente em 2010, ao cursar uma disciplina no mestrado.

 Ao crepúsculo, uma luz mágica, dourada, iluminava o Bom Fim. Nesse bairro, nesse pequeno país, a esta luz,Chagall teria visto os violinistas em lento voo sobre os telhados; eram quatro; três, quem seriam?

Nascido em Porto Alegre, em 1937, o escritor é filho de família emigrada da Europa Oriental. Foi criado no Bom Fim, bairro que até hoje reúne a comunidade judaica e que na década de 30 era composto por algumas lojas, fábricas de móveis e pequenas confecções. Atualmente o bairro possui lojas mais modernizadas e o pequeno comércio foi praticamente substituído por bares e cafeterias. O Bom Fim é hoje conhecido como um dos locais da boemia porto-alegrense, de diversas livrarias e casas culturais onde circulam os intelectuais e artistas da cidade. Ambiente que possui considerável importância na obra de Moacyr Scliar, o bairro já estava presente no título e na narrativa de seu primeiro romance A Guerra no Bom Fim.

O escritor Moacyr Scliar

A primeira edição de A Guerra no Bom Fim é de 1972 e possui três partes: a primeira, “A Guerra no Bom Fim”; a segunda, “A Guerra no Morro da Velha” ou “Uma Odisséia Odontológica” ou “Memórias de um Astuto Dentista” e a terceira, “A Guerra em Israel”. As segundas e terceiras partes foram retiradas das edições posteriores pelo próprio autor. Essa edição de 1972 não se encontra atualmente disponível em livrarias. Eu li a publicação de 2008 da editora L&PM e peguei emprestada na biblioteca da PUCRS a edição de 1972 pois fiquei curiosa para conhecer as outras partes do livro.

A primeira parte do romance é uma espécie de crônica em que o narrador, traça um panorama da comunidade de judeus imigrantes instalados no Bom Fim do início dos anos de 1940, retratando o impacto dos fatos da Segunda Guerra Mundial através das fantasias infantis da personagem principal, Joel, e de seus amigos. A narrativa inicia com a descrição do espaço e de seus limites geográficos, apresentando ao leitor essa localidade bastante tradicional do município de Porto Alegre e a inauguração do Parque Farroupilha – a Redenção – ponto turístico da cidade onde hoje as pessoas se encontram para lazer, prática de esportes e visitam feiras de artesanato, o famoso Brique da Redenção.

O enredo concentra-se num relato bem-humorado da vida familiar, das relações com os vizinhos e das brincadeiras comuns dos meninos do bairro. Contudo, o escritor introduz no texto as tensões ocorridas na Europa com os judeus através das fantasias de Joel e pela representação de alguns dos conflitos europeus e brasileiros no Bom Fim.

Batidos em Stalingrado e na Sicília, com problemas de abastecimento e ameaçados na África, os alemães se voltaram para o Bom Fim. Este pequeno país estava de pé e mobilizado, sob as ordens do Rei Joel. Um ataque frontal não seria possível. A quinta-coluna entrou em ação.

Aconteceu na festa do Divino…

A partir dessa metamorfose entre realidade e imaginação, Scliar ficcionaliza o espaço urbano da capital gaúcha, sua cultura, seus costumes e relata a adaptação dessas famílias judaicas e a formação de uma identidade “judaico-portoalegrense”, ou seja, a nova geração de judeus nascidos no município – a qual o próprio escritor pertence – e que constitui uma cultura híbrida, convivendo a tradição familiar e a local.

Além das representações culturais, Scliar traz a barbárie nazista para o Bom Fim e permite ao leitor associar os constantes conflitos entre judeus, alemães, negros e poloneses – protagonizados por Joel e seus amigos –, criando uma metonímia da Segunda Guerra em Porto Alegre.

Enfrentaram os alemães no terreno baldio ao lado da garagem, onde eles estava entrincheirados. As metralhadoras matraqueavam sem cessar. Caíram mortos Dudi, Jean e Beto. Bons companheiros! Vendo-os tomabar, o coração de Joel Encheu-se de ódio: “Para a frente, turma” – gritou, e lançou-se contra um ninho de metralhadoras.

Moacyr Scliar escreve uma obra centrada em uma forte vertente judaica, sem se afastar da cultura gaúcha que o abriga, num processo de reconfiguração das identidades culturais e nacionais. No entanto, sua temática é universal porque trata de questões cabíveis a qualquer indivíduo, independente de sua descendência. Assim, esse primeiro romance do autor é semente que germinará numa obra rica em experiências dentro de seu grupo de origem e da identidade híbrida do homem, erigida nesse percurso, retratando um universo fecundo onde se encontram diversas culturas na literatura brasileira.

A leitura de  A Guerra no Bom Fim  nos mostra, com uma linguagem leve, como as pessoas e principalmente as crianças, reagiram aos conflitos mundiais. Nesse sentido, podemos perceber a importância do escritor ao retratar uma época difícil para a humanidade, contribuindo com a memória cultural e a com a formação de uma identidade nacional.

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Título: A Guerra no Bom Fim
Autor: Moacyr Scliar
Editora: L&PM
Número de Páginas: 128
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