José de Alencar: um ficcionista múltiplo

Hoje estamos comemorando 183 anos do nascimento de José de Alencar. Quem já cursou o Ensino Médio (ou está cursando) com certeza já ouviu falar desse romancista brasileiro. Confesso que, quando eu estava na escola, eu achava a obra de Alencar um pouco maçante, achava que ele enrolava demais… No entanto, hoje, após estudar a literatura brasileira de forma mais aprofundada na faculdade e no mestrado, percebo a importância que esse escritor possui para a formação da nossa literatura.

José Martiniano de Alencar (1829 -1877)

Alencar consolidou o romance brasileiro ao escrever movido por um sentimento de “missão patriótica”. Temos a nítida impressão de que durante sua carreira, ele quis senão descobrir a essência da nacionalidade. É por isso que seus romances tratam do indígena, do homem do interior, do homem da cidade. Alencar retrata os costumes de cada uma das regiões que ele procura descrever. Além disso, sua linguagem é de uma riqueza e de uma beleza que só transcrevendo um trecho como exemplo para poder compreender:

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna e mais longos que o talhe da palmeira. O favo da jati não era doce como o seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como o teu hálito perfumado.

José de Alencar. Iracema.

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Vocabulário:

Graúna – ave de penas pretas.

Jati – abelha jataí, também chamada abelha mosquito.

Recender – exalar perfume.

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Iracema (1884), de José Maria de Medeiros.Obra inspirada no romance de José de Alencar.

Vamos, então, saber um pouco mais sobre a vida deste escritor?

José Martiniano de Alencar nasceu em 1.º de maio de 1829, em Messejana, Ceará. Ele foi o fruto de uma da união entre o padre José Martiniano de Alencar e a prima Ana Josefina de Alencar. Essa paixão proibida resultou no abandono da batina pelo pai do escritor e na ida da família ao Rio de Janeiro onde o pai de José de Alencar assumira o cargo de senador em 1830. Quatro anos depois, a família retorna ao Ceará pois Martiniano fora nomeado governador do Estado.

Entre 1837-38, em companhia dos pais, viajou do Ceará à Bahia, pelo interior, e as impressões dessa viagem influenciariam mais tarde em sua obra de ficção. Transferiu-se com a família novamente para o Rio de Janeiro, onde frequentou o Colégio de Instrução Elementar. Em 1844 vai para São Paulo, onde permanece até 1850, terminando período preparatório e se matriculando na Faculdade de direito em 1846. Nessa época, o senador Alencar voltou ao Ceará pois estava muito doente, deixando o resto da família no Rio. José de Alencar resolve assistir o pai, viajando a sua terra natal. O reencontro com a paisagem cearense faz ressurgir as recordações de sua infância, fixando na memória do escritor o cenário do qual ele retrata em um dos seus romances mais importantes, Iracema, publicado em 1865.

Nesse período, surgiram os primeiros sintomas da tuberculose, doença que o acompanhará durante trinta anos. Em Como e por que sou romancista, Alencar afirma: “[…] a moléstia tocara-me com a sua mão descarnada…”.

Monumento de Iracema, musa do romance indianista de José de Alencar. Um dos três dedicados à Iracema erigidos em Fortaleza.

Transferiu-se para a Faculdade de Direito de Olinda. O pai, bem de saúde, logo voltava ao Rio, e Alencar, a São Paulo, onde terminaria o curso.

Sua formatura foi em 1850. No ano seguinte, Alencar já estava no Rio de Janeiro, trabalhando num escritório de advocacia. Começava o exercício da profissão que jamais abandonaria e que garantiria seu sustento. Afinal, como ele próprio assinalou, “não consta que alguém já vivesse, nesta abençoada terra, do produto de obras literárias”.

Passa a colaborar no Correio Mercantil, convidado por Francisco Otaviano de Almeida Rosa, seu colega de Faculdade, e a escrever para o Jornal do Commercio os folhetins que, em 1874, reuniu sob o título de Ao correr da pena. Redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro em 1855. Filiado ao Partido Conservador, foi eleito várias vezes deputado geral pelo Ceará; de 1868 a 1870, foi ministro da Justiça. Não conseguiu realizar a ambição de ser senador, devendo contentar-se com o título do Conselho. Insatisfeito com a política, passou a dedicar-se exclusivamente à literatura.

A sua notoriedade começou com as Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, publicadas em 1856, com o pseudônimo de Ig, no Diário do Rio de Janeiro, nas quais critica veementemente o poema épico de Domingos Gonçalves de Magalhães, favorito do Imperador e considerado então o chefe da literatura brasileira. Estabeleceu-se, entre ele e os amigos do poeta, apaixonada polêmica de que participou, sob pseudônimo, o próprio Pedro II. A crítica por ele feita ao poema denota o grau de seus estudos de teoria literária e suas concepções do que devia caracterizar a literatura brasileira, para a qual, a seu ver, era inadequado o gênero épico, incompatível à expressão dos sentimentos e anseios da gente americana e à forma de uma literatura nascente. Optou, ele próprio, pela ficção, por ser um gênero moderno e livre.

Ainda em 1856, publicou o seu primeiro romance conhecido: Cinco minutos. Em 1857, revelou-se um escritor mais maduro com a publicação, em folhetins, de O Guarani, que lhe granjeou grande popularidade. Daí para frente escreveu romances indianistas, urbanos, regionais, históricos, romances-poemas de natureza lendária, obras teatrais, poesias, crônicas, ensaios e polêmicas literárias, escritos políticos e estudos filológicos. A parte de ficção histórica, testemunho da sua busca de tema nacional para o romance, concretizou-se em duas direções: os romances de temas propriamente históricos e os de lendas indígenas. Por estes últimos, José de Alencar incorporou-se no movimento do indianismo na literatura brasileira do século XIX, em que a fórmula nacionalista consistia na apropriação da tradição indígena na ficção, a exemplo do que fez Gonçalves Dias na poesia. Em 1866, Machado de Assis, em artigo no Diário do Rio de Janeiro, elogiou calorosamente o romance Iracema, publicado no ano anterior. José de Alencar confessou a alegria que lhe proporcionou essa crítica em Como e porque sou romancista, onde apresentou também a sua doutrina estética e poética, dando um testemunho de quão consciente era a sua atitude em face do fenômeno literário. Machado de Assis sempre teve José de Alencar na mais alta conta e, ao fundar-se a Academia Brasileira de Letras, em 1897, escolheu-o como patrono de sua Cadeira.

Casa de José de Alencar - Messejana, Ceará

Sua obra é da mais alta significação nas letras brasileiras, não só pela seriedade, ciência e consciência técnica e artesanal com que a escreveu, mas também pelas sugestões e soluções que ofereceu, facilitando a tarefa da nacionalização da literatura no Brasil e da consolidação do romance brasileiro, do qual foi o verdadeiro criador. Sendo a primeira figura das nossas letras, foi chamado o patriarca da literatura brasileira. Sua imensa obra causa admiração não só pela qualidade, como pelo volume, se considerarmos o pouco tempo que José de Alencar pôde dedicar-lhe numa vida curta. Faleceu no Rio de Janeiro, de tuberculose, aos 48 anos de idade.

Teatro José de Alencar - Fortaleza, Ceará

OBRAS DO AUTOR

ROMANCE
Cinco minutos – 1856; O guarani; A viuvinha – 1857; Lucíola – 1862; Diva – 1864; Iracema; As minas de prata – l.º vol. – 1865; As minas de prata – 2.º vol. – 1866; O gaúcho; A pata da gazela – 1870; Guerra dos mascates – l.º vol. ; O tronco do ipê – 1871; Sonhos d’ouro; Til – 1872; Alfarrábios; Guerra dos mascates – 2º vol. -1873; Ubirajara – 1874; Senhora; O sertanejo – 1875; Encarnação – 1893

TEATRO
O crédito; Verso e reverso; Demônio familiar – 1857; As asas de um anjo – 1858; Mãe – 1860; A expiação – 1867 ; O jesuíta – 1875

CRÔNICA
Ao correr da pena – 1874

AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL
Como e porque sou romancista – 1893

CRÍTICA E POLÊMICA
Cartas sobre a confederação dos Tamoios- 1856; Ao imperador: Cartas políticas de Erasmo e Novas cartas políticas de Erasmo – 1865 ; Ao povo: Cartas políticas de Erasmo: O sistema representativo – 1866

Clique aqui, para acessar o perfil do escritor no sítio da Academia Brasileira de Letras.

Acesse artigos sobre filmes baseados em obras de José de Alencar no sítio da Wikipedia.

E você, já leu algum romance de José de Alencar? Conte pra nós. 😉

Beijinhos

Ana Karina

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