Cubismo: a multiplicação dos pontos de vista

Les Demoiselles d'Avignon (As senhoras de Avignon - 1907), de Pablo Picasso

Em 1907, a exposição da tela  As senhoras de Avignon provoca comoção na cena artística parisiense.

O quadro revela um modo revolucionário de representar a realidade, rompendo com os conceitos tradicionais de harmonia, proporção, beleza e perspectiva. Com essa obra nasce a pintura cubista, e o seu criador, Pablo Picasso, será o grande mestre do Cubismo, que marcou a arte do século XX. Além dele, também se destacarão Georges Braque e Juan Gris.

Pablo Picasso (1881 - 1973)

Os artistas desejam, agora, apresentar relações e não formas acabadas. Para enfatizar essas relações, propõem diferentes pontos de vista dos quais um determinado objeto pode ser observado. É por isso que essa vanguarda se define pela sobreposição de diferentes planos.

Com essa técnica, os cubistas pretendem forçar o observador a questionar a realidade, não aceitando uma interpretação única, linear.

Violino e jarro (1909-10), de Georges Braque

Na literatura, uma das características do Cubismo é a preocupação com a disposição gráfica do poema: o espaço da folha passa a fazer parte da obra, assim como os tipos empregados na composição do texto. Por exemplo, veja o poema abaixo e sua tradução.

Il pleut, de Guillaume Apollinaire

Tradução literal do poema Il pleut (Chove)

“Chovem vozes de mulheres como se estivessem mortas mesmo na recordação. Chovem também vocês maravilhosos encontros de minha vida ó gotinhas, e estas nuvens empinadas se põem a relinchar todo um universo de cidades minúsculas. Escuta se chove enquanto a mágoa e o desdém choram uma antiga música. Escuta caírem os laços que te retém embaixo e em cima.”

(Tradução de Sérgio Capparelli. In: Tigres no quintal. Porto Alegre: Kuarup, 1997)

 Note que o poema de Apollinaire aproxima a poesia da pintura, ao reproduzir visualmente a queda da chuva. Nessa obra, rompe-se a noção de estrofe e verso.

No Brasil, a influência dessa vanguarda aparece na obra de diversos autores. Observe como ela está presente no poema a seguir,  de Oswald de Andrade:

hípica

Saltos records
cavalos da penha
correm jaquéis e higionopolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca chá
Na sala de cocktails

ANDRADE, Oswald  de. Poesias reunidas.   In: Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974. v. 7, p. 129.

A composição do poema é claramente cubista. Para retratar o ambiente de uma corrida de cavalos na hípica, o eu lírico promove uma “sobreposição” de imagens que deslocam o olhar do leitor da pista, onde estão cavalos e jóqueis, para o público entretido pela orquestra. O resultado é uma imagem multifacetada, composta de fragmentos de diferentes planos da realidade.

Para saber um pouco mais sobre o Cubismo, acesse o site do MAC e o blog Arte Cubista.

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2 thoughts on “Cubismo: a multiplicação dos pontos de vista

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