O primeiro beijo, de Clarice Lispector

 Depois de alguns dias de gripe, retomo as atividades aqui no Blog da Literatura. Muita coisa aconteceu durante essa semana e muitas datas importantes foram comemoradas também. Vamos falar sobre elas nos próximos posts. 🙂

Começo o dia de hoje com um belíssimo conto de uma autora que gosto muito, a Clarice Lispector (em breve farei um post só sobre a obra dela), em homenagem ao Dia do Beijo!! Vocês sabiam que ontem foi o Dia do Beijo? Pois é…

O beijo, de Gustav Klimt

Às vezes eu penso que é até um pouco banal, nos dias de hoje, comemorar isso já que um beijo não possui mais o significado que possuía antes… Tenho a impressão de que as pessoas beijam qualquer um (ou qualquer uma!) sem pensar mais em sentimento… Muitos preferem a quantidade à qualidade. Mesmo assim, acho válido falarmos sobre beijo e, porque não, sobre o primeiro beijo? Sim, o primeiro beijo deve ser algo marcante, algo especial, não acham?

cena do filme "Meu primeiro amor" (My girl), de 1991, com Macaulay Culkin e Anna Chlumsky

Vejam, então, como Clarice Lispector narrou o primeiro beijo de um menino…

a escritora Clarice Lispector (1920 - 1977)

O PRIMEIRO BEIJO

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

– Sim, já beijei antes uma mulher.

– Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…

Ele se tornara homem.

(In “Felicidade Clandestina” – Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998)

E vocês? Ainda lembram do primeiro beijo?

Espero que tenham gostado do conto (e do beijo!)…

Beijinhos

Ana Karina

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2 thoughts on “O primeiro beijo, de Clarice Lispector

  1. Clarice Lispector é sempre maravilhosa!
    Hoje em dia não sei, mas os primeiros beijos da nossa geração realmente eram inesquecíveis… pelas diversas questões envolvidas… e, muitas vezes, na verdade, são lembranças engraçadas e divertidas, muito mais que românticas… hehehe
    Mas, enfim… já que a questão é beijo… bora beijar, né?!

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