Gregório de Matos, o Boca do Inferno

Gregório de Matos Guerra

Gregório de Matos Guerra, advogado e poeta, nasceu na então capital do Brasil, Salvador, BA, em 7 de abril de 1623, numa época de grande efervescência social, e faleceu em Recife, PE, em 1696. Filho de família abastada e poderosa, estudou na Universidade de Coimbra, onde se formou em Direito.

Em Portugal, foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia.

Gregório deixou uma obra poética riquíssima, no entanto, não foi publicado na época, sendo redescoberto no final do século XIX. Entre 1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras publicou 6 volumes como a compilação de sua poesia.

Podemos apontar três temas básicos: poesia religiosa, poesia amorosa e poesia satírica.

Em suas poesias religiosas o poeta se ajoelha diante de Deus, pedindo perdão pelos pecados cometidos e promete não mais pecar. O soneto A Jesus Cristo, Nosso Senhor, o poeta apela para a infinita capacidade de perdão de Cristo, e alega que a ausência do perdão representaria o fim da glória divina.

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,

Da vossa alta piedade me despido;

Antes, quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida já cobrada,

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.


A poesia amorosa de Gregório apresenta duas facetas distintas; a primeira é a do amor idealizado e dos afetos traduzidos por uma linguagem elevada, exemplo dessa perspectiva é o poema dedicado à D.Ângela, onde as palavras anjo e flor são usadas para designar a amada num constante jogo de aproximação.

À Dona Ângela

 

Anjo no nome, Angélica na cara,

Isso é ser flor, e Anjo juntamente,

Ser Angélica flor, e Anjo florente,

Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara

De verde pé, de rama florescente?

E quem um Anjo vira tão luzente,

Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu custódio, e minha guarda

Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.


A segunda faceta é a poesia de amor obsceno-satírico, nas quais o poeta se utiliza de uma visão do amor físico, por meio de imagens grosseiras e chocantes, até porque o poeta usa uma infinidade de palavrões para descrever o ato e os órgãos sexuais, expressões machistas, e, sobretudo, um desprezo pelas mulheres, em especial negras e mulatas.

A poesia satírica de Gregório rendeu-lhe o apelido de Boca do Inferno, porque apresenta uma linguagem ferina e contundente, que não perdoa nenhum grupo social, onde ninguém escapa à sua ironia Os insultos do poeta à sociedade da época podem ser observados nos diversos poemas em que descreve a cidade da Bahia (Salvador) A truculência verbal de Gregório sempre rendeu-lhe inimizades e ódios, mas sua obra é considerada de extrema importância para a literatura brasileira.

Epílogos

I

Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia.

Que falta nesta cidade?… Verdade.
Que mais por sua desonra?… Honra.
Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?… Negócio.
Quem causa tal perdição?… Ambição.
E no meio desta loucura?… Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?… Pretos.
Tem outros bens mais maciços?… Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?… Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?… Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?… Guardas.
Quem as tem nos aposentos?… Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?… Bastarda.
É grátis distribuída?… Vendida.
Que tem, que a todos assusta?… Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?… Simonia.
E pelos membros da Igreja?… Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?… Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?… Freiras.
Em que ocupam os serões?… Sermões.
Não se ocupam em disputas?… Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?… Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?… Subiu.
Logo já convalesceu?… Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?… Não pode.
Pois não tem todo o poder?… Não quer.
É que o Governo a convence?… Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

 

 

A Bahia de Gregório de Matos - Salvador/BA - vista do Pelourinho

Foi o primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio geográfico e social. Influenciado pelos mestres espanhóis da Época de Ouro – Góngora, Quevedo, Gracián, Calderón – sua poesia é a maior expressão do Barroco literário brasileiro, no lirismo. Ao seu tempo a imprensa estava oficialmente proibida. Suas poesias corriam em manuscritos, de mão em mão, e o Governador da Bahia D. João de Alencastre, que tanto admirava “as valentias desta musa”, coligia os versos de Gregório e os fazia transcrever em livros especiais. Ficaram também cópias feitas por admiradores, como Manuel Pereira Rabelo, biógrafo do poeta. Por isso é arriscado afirmar que toda a obra a ele atribuída seja realmente de sua autoria.

Para acessar o perfil do poeta no site da Academia Brasileira de Letras, clique aqui.

Leia alguns textos de Gregório de Matos no site do Jornal de Poesia.

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