Vicente de Carvalho: o poeta do mar

Vicente Augusto de Carvalho, poeta brasileiro

Vicente de Carvalho foi advogado, jornalista, político, magistrado, poeta e contista, nasceu em Santos, SP, em 5 de abril de 1866, e faleceu em Santos, SP, em 22 de abril de 1924. Ele é conhecido na literatura pela sua poesia lírica e porque se ligou desde o início ao grupo de jovens poetas de tendência parnasiana.

Estreou, ainda estudante, com poemas românticos de Ardentias e Relicário. Mesmo ingressando nas fileiras do Parnasianismo, jamais renegou os sentimentos líricos iniciais, assumindo uma posição independente frente às tendências formalistas. Convivendo também com o Simbolismo, dele absorveu certa fluidez, melancolia e profunda emotividade, sobretudo frente à natureza e, em especial, ao mar. A vista do mar e das paisagens praianas, sempre em consonância com os estados d’alma, constitui tema constante de sua obra.

Cantigas praianas

I

Ouves acaso quando entardece

Vago murmúrio que vem do mar,

Vago murmúrio que mais parece

Voz de uma prece

Morrendo no ar?

          Beijando a areia, batendo as fráguas,

          Choram as ondas; choram em vão:

          O inútil choro das tristes águas

          Enche de mágoas

          A solidão…

Duvidas que haja clamor no mundo

Mais vão, mais triste que esse clamor?

Ouve que vozes de moribundo

Sobem do fundo

Do meu amor.

(In Poesia. Rio de Janeiro, Agir, 1965. p. 32.)

Com Poemas e Canções, este traço de poeta da natureza fica muito bem marcado, como diz o prefácio que Euclides da Cunha fez para o livro: a visão viva do oceano, da mata e da montanha; o encontro pela beleza da mulher fazem de Vicente de Carvalho um poeta rico em imagens da natureza e em ressonâncias psicológicas. Um poeta que soube fundir o sensorial e o emotivo, fazendo nascer daí uma linguagem nova.

PALAVRAS AO MAR

Mar, belo mar selvagem

Das nossas praias solitárias! Tigre

A que as brisas da terra o sono embalam,

A que o vento do largo eriça o pêlo!

Junto da espuma com que as praias bordas,

Pelo marulho acalentada, à sombra

Das palmeiras que arfando se debruçam

Na beirada das ondas – a minha alma

Abriu-se para a vida como se abre

A flor da murta para o sol do estio.

________________________________________

Ó velho condenado

Ao cárcere das rochas que te cingem!

Em vão levantas para o céu distante

Os borrifos das ondas desgrenhadas.

Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,

Palpitante de estrelas quando é noite,

Paira, longínquo e indiferente, acima

Da tua solidão, dos teus clamores…

________________________________________

Ninguém entenda, embora,

Esse vago clamor, marulho ou versos,

Que sai da tua solidão nas praias,

Que sai da minha solidão na vida…

Que importa? Vibre no ar, acode os ecos

E embale-nos a nós que o murmuramos…

Versos, marulho! Amargos confidentes

Do mesmo sonho que sonhamos ambos!

(In Literatura I. São Paulo, CERED, 1987. p. 122.)

O poeta é o segundo ocupante da Cadeira 29, eleito em 1º de maio de 1909, na sucessão de Artur Azevedo e recebido por carta na sessão de 7 de maio de 1910.

Obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908); Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto “Selvagem” (1909); Páginas soltas (1911); A voz dos sinos (1916); Luizinha, contos (1924); discursos e obras políticas e jurídicas.

Para acessar o perfil do autor no site da Academia Brasileira de Letras, clique aqui.

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